Tuesday, January 02, 2007

Memória de Elefante

No segundo dia do ano, aprendi o que significa uma "edição ne varietur". Estou convencido, portanto, de que 2007 me guarda as lições mais importantes para o fim.

Mas enfim. Adiante.

Estava a trocar livros na Bertrand do Chiado com o iPod assustadoramente no Shuffle quando, num acorde perigoso de guitarra eléctrica, um tipo de casaco curto preto e cachecol às cores me aparece à frente, com a barba por fazer, e me olha curioso nos olhos. Apanhei um susto, e fiquei aliviado por ver que era eu que me tinha começado a mexer ao som dos Wolf Parade, sendo arrastado pelos meus irritantes passinhos de dança para a frente de um espelho. Como é óbvio, despedi-me do rapaz - era bem giro, posso até dizer - e voltei à estante.

Memória de Elefante. Nunca li um livro de António Lobo Antunes. Vou bem a tempo de dizer que é uma vergonha para um português nunca ter lido nada de alguém tão elogiado, criticado, publicado e discutido. Falou-se até, no meio erudito português, que o Nobel de Saramago ficaria melhor nas mãos de Lobo Antunes. Eu li pouco de Saramago e, como disse, nada de Lobo Antunes, mas pelo bárbaro que é, acho que nem uma luva fica bem nas mãos de José Saramago, quanto mais um prémio Nobel. (Mas dou o braço a torcer e louvo a Academia sueca, por premiar - como se vê - a qualidade literária e não o quadro mental dos autores.)

Enfim, dito isto tudo, comprei uma edição ne varietur do Memórias de Elefante, e foi então esta a lição que dele retirei, ainda sem o ter lido [aproveito para dizer que o autor da definição se chama Carlos Ceia e que encontrei isto algures pela www]:


"[Ne varietur:] Reedição de uma obra para estabelecimento definitivo do texto em vida do autor, que autoriza essa versão final. Também se diz da reedição de um texto que não sofre alterações em relação a edições anteriores. A edição crítica de O Crime do Padre Amaro, de Eça de Queirós, preparada por Carlos Reis e Maria do Rosário Cunha, compara as versões de 1876 e 1880 (esta na sua terceira edição, de 1889). Os editores críticos consideraram que a versão de 1875, uma versão não autorizada pelo autor, não deve ser considerado canónico, e que a edição de 1889 apresenta variantes estilísticas significativas relativamente à de 1880 e que, por isso mesmo, deve ser considerada a edição ne varietur, já assim classificada por Guerra da Cal. Esta edição não terá sido corrigida por Eça, mas foi a última por ele autorizada.
Boa Tarde às Coisas Aqui Em Baixo (2003) é o primeiro livro de António Lobo Antunes em edição ne varietur. Este trabalho de revisão e fixação do texto definitivo, que revoga todas as edições anteriores, é realizado por uma comissão de professoras universitárias, constituída por Agripina Carriço Vieira, Eunice Cabral e Graça Abreu, sob a coordenação de Maria Alzira Seixo. Como é normativo neste tipo de edição, qualquer referência ou citação da obra de Lobo Antunes terá de ser retirada da edição ne varietur, de alguma forma comparável à edição da última vontade do autor."



De nada.

7 comments:

Lau said...

lê mazé Fernando Pessoa - o livro do desassossego! isso sim.. ;p apesar de Lobo Antunes tambem ser bastante interessante
*

sofia said...

Lê o "Livro de Crónicas" do Lobo Antunes. Acho que é o 1º. É de 98.

Não li mais nada dele, mas é delicioso. Trust me. E verás como as pequenas coisas são relevantes.

Ah, e JÁ.
(hoje encontrei documento electrónico que mostra que tiveste "The Razor's Edge" um ano (!) na gaveta.
Pequeno tesouro que guardavas sem saber!)

Maria Strüder said...

Elefante...coincidência "desagradável", hoje "conheci" pela primeira vez o Homem Elefante aquele senhor que costuma estar a pedir esmola com o BI.
Enfim ...

Anonymous said...

Vais mas é ouvir Memória de Elefante de manhã na Renascenca (8.50).

seabra said...

Vais mas é ouvir Memória de Elefante de manhã na Renascenca (8.50).

El-Gee said...

Dois livros e um programa de rádio. Eu devo dar a imagem de quem nao tem nada para fazer!

Anonymous said...

lê o kamasutra pra ver se aprendes alguma coisa.Isso sim e interessante.