Thursday, January 18, 2007

Dois homens cruzam-se na noite escura

Dois homens cruzam-se na noite escura.

Estou há semanas com esta frase na cabeça. Na verdade, a esta frase corresponde uma imagem, que também me vagueia pelo sub-consciente: num ângulo recto iluminado, dois homens surgem cada um de um dos lados escuros da parede lisa. Vestem fatos claros e chapéus. São ambos versões desfocadas de um Dick Tracy imaginário. A geometria e as cores opacas da imagem têm algo de um Magritte obscuro. Nesta cena, que não passa de um momento, os homens, na verdade, ainda não se cruzaram, estão ainda a contornar cada um o seu lado do ângulo. Porém, não só já se antevêem, como sabem da chegada um do outro. Estão ambos à mesma distância do ponto onde se vão cruzar.

Os dois homens nunca embaterão surpreendidos, pois provavelmente têm encontro marcado e pararão no momento em que contornarem a esquina. Para quê, não está claro para mim. (Eu só sei que dois homens se cruzam na noite escura). Já pensei um bocado neste encontro (nomeadamente sempre que a frase “dois homens cruzam-se na noite escura” me surge) e várias hipóteses se apresentam, nenhuma das quais isenta de secretismo. Penso que, para começar, os homens, quando se cruzarem no ângulo, não vão falar – no máximo sussurrarão. Um deles acenderá um cigarro, e é esta a única forma que terei de distingui-los, porque os fatos amarelos-baços e os chapéus da mesma cor são iguais, como igual é o nó das gravatas pretas sobre as camisas brancas engomadas. Eu vejo-os de cima, como que do cimo de um prédio do outro lado da rua, e evidentemente sou o único observador desta cena geométrica, onde a única certeza é um encontro furtivo numa esquina mal iluminada.

Infelizmente nem as caras vejo, escondidas sabiamente sob as abas largas dos chapéus de feltro. Provavelmente, estou em Chicago nos anos 30, mas isso não é líquido para mim. No entanto, a confirmar-se essa hipótese, provavelmente vai ser delineado um contrabando de scotch ou encomendado um assassínio. Seja como for, só existe esta esquina, portanto a referência geográfica é inútil: não me vai levar a lado nenhum.

Não sei se a minha hipótese de cumplicidade é válida: os dois homens poderiam perfeitamente ser inimigos. No entanto, algo na sua indumentária me diz que são um reflexo mútuo. Nesse sentido, apesar de em momento algum eu admitir que possam ser uma só pessoa frente a um espelho - visto que só há um cigarro - sinto alguma secreta identidade conjunta nos dois homens. E mesmo assim nada se pode excluir, porque o cigarro é ele próprio uma hipótese posterior à cena original, em que ambos estão ainda em movimento e, portanto, o homem da direita ainda não acendeu o seu cigarro. Como tal, esse cigarro pode nem existir, remetendo-nos para a questão do verdadeiro número de homens que se aproxima daquela esquina. Seja como for, estou convencido de que são dois, e tenho quase a certeza de que este é um encontro de malfeitores. Com alguma classe, por certo - aquela classe que o secretismo elegante proporciona -, mas malfeitores.

Tenho obviamente algum medo de ser descoberto. Por outro lado, não sou activo nesta cena, nem o meu estatuto de observador-pássaro me permite fazer realisticamente parte dela. Ainda para mais, há demasiado que eu não sei. Eu sou apenas o criador deste momento, e o seu desenlace é de tal modo misterioso para mim, que não consigo avançar da frase que me persegue há dias.

4 comments:

Rafael Stuart said...

bravo! infinitamente melhor que o fogo de artificio na ilha do pico! tanto classico literario esta a fazer te bem! *

Maria Strüder said...

"We want more than a mere photograph of nature. We do not want to paint pretty pictures to be hung on drawing-room walls. We want to create, or at least lay the foundations of, an art that gives something to humanity. An art that arrests and engages. An art created of one's innermost heart." (E.M.)
Este pintor faz-me comichões no coração=)
Keep on dreaming
[Kiss Kiss]

AHT said...

Não referiste porque te esqueceste, mas nessa noite o candeeiro que está na esquina do outro lado da rua (assim poupava-se electricidade e uma lampada iluminava duas meias ruas) estava com a luz mais ténue do que o normal.

As sombras extremamente afiladas, provocadas pela baixa estrutura luminosa, ajudam assim a criar a minha imagem de simetria e o equilibrio de volumes naquela esquina torna-se perfeito.

Joana said...

inspiracao ao maximo neste post...

** :p