Friday, January 26, 2007

Juventude (irre)quieta

- João!

- Peter, como é que é! Que susto pá!

- Pois, ias aí distraído! Tás com um ar triste pá!

- Foda-se tou cansado.

- Também eu. E então, qué feito?

- Pá nada de especial..tenho trabalhado comó caraças.

- Pois, é como eu. E mais?

- Pá..uns copos e tal. Umas futeboladas..

- Como é que tá a Margarida?

- Acabámos.

- Tu e a Margarida acabaram?!

- Pá já não dava. Nunca nos víamos.

- Foda-se mas davam-se tão bem pá!

- Pois era. Pá não dava. Ando a trabalhar mesmo muito. As gajas precisam de atenção Pedro. Eu não podia dar-lhe tanto quanto ela pedia..

- Mas andas com tanto trabalho porquê?!

- Sei lá pá. Projectos e mais projectos. Já quase nem durmo. Pá não sei, isto tá a entrar numa espiral maluca. Tou viciado naquela merda.

- Tem cuidado pá. Precisas de respirar, de vez em quando. Pá não vais acabar com uma namorada de 5 anos porque não tens tempo para a ver, Pedro!!

- Pois. Não sei. Então e tu pá! Não te vejo desde a faculdade. Como é que é? Sempre aceitaste a tal proposta?

- Aceitei! Pá tá a ser bem louco!

- Muito trabalho?

- Imenso. Pá mas tem que ser, não é. Um gajo tem que se alimentar de alguma maneira.

- Até parece que trabalhas pa comer!! Com um ordenado desses..!!

- Um gajo quer sempre mais pá. O meu objectivo já não é comer. É viajar. Ter um carro. Uma casa. Olha agora meti metade da guita num fundo marado, Japão e Singapura.

- Sempre a pensar nos trocos. E como é que tas? Tens ido pós copos?

- Nada. Chego a casa na sexta, adormeço, sábado durmo até tarde e de vez em quando ainda vou dar uma volta. Bem anteontem fodi-me todo. Mas tenho andado calminho. Pá ando muita cansado também.

- Futeboladas, nada?

- Não dá. Porra saio do escritório às dez. Chegar a casa não chegar, mudar de roupa…só se houvesse jogos às onze.

- Realmente tas mais gordo.

- Vai pó caralho! Cabrão! Um gajo a comer saladas o dia todo e tem que gramar com isto!

- Bolinha! Uma bolinha trabalhadora, é o que tu és!

- Cabrão do esparguete a dar-me baile. Mas olha, como é que é, almoçamos aí amanhã?

- Não pá, nunca tenho tempo para almoçar..

- Jantamos?

- Pá não dá. Hoje em dia não dá mesmo..

- Porra, um gajo tem que marcar uma reunião para tar contigo?!

- Pergunta à Margarida..ela conhece os esquemas todos!!

- Mesmo assim não chegou..

- Nunca chegaria..

- Pá..

- Que é que foi?

- Andamos a desperdiçar as nossas vidas João.

- Achas?

- Porra ainda perguntas? Somos uns putos, só queremos é noite e gajas e jogar à bola e olha para isto. Não temos tempo para almoçar, mal dormimos, nem sequer uma namorada dá pa ter.

- Pá Pedro..pois é. Não sei que te diga.

- Mas isto tudo para quê?

- Pá não sei. Carreira. Guito. Pá curtia dar uma vida boa aos meus filhos.

- Aos teus filhos?! Teus e da Margarida?

- Pá não gozes. Percebo o que queres dizer. Mas não sei. Um dia havemos de ter filhos porra!

- Só se forem adoptados. Tanta gente a ter filhos sem os poder sustentar..e tanta a trabalhar tanto que não os pode ter..que ironia..

- Pensas demais nas coisas. Pá não sei que é que quero. Mas tou bem. Gosto do que faço, ganho bem..para já, tou bem.

- E queres ficar assim para sempre?

- Sei lá. Logo vejo.

- O que me faz impressão é um gajo poder ter sempre mais. Por esta lógica, passamos a vida inteira a trabalhar 15 horas por dia. Ricos e sozinhos.

- Ricos e sozinhos. Cheios da putas e gold-diggers!

- Que tristeza.

- Não, tou a gozar pá. As coisas compõem-se. Quando vir os putos num colégio bacano, e contentes com o que eu lhes puder dar, acho que valeu a pena.

- E depois tornas-te velho, trabalhaste que nem um porco e tens uns putos felizes. Boa. E eles, vão fazer o quê? Trabalhar que nem uns porcos e fazer os teus netos felizes. E as gerações não passam disto, de passar a bola umas para as outras?

- Pelo menos cria-se uma fortuna familiar!

- Grande coisa. E a vida do patriarca, terá valido a pena?

- Pá, morrer workaholic mas fundador de uma geração de empresários competentes..não acho um mau destino..

- Basta-te?

- Pá..

- Basta-te a consolação de teres oferecido a vida em nome dos teus filhos?

- Talvez.

- Pá a mim não. Só temos uma vida. Tudo bem em dar agora alguns anos a esta loucura do trabalho, mas para sempre..acho que eu não aguentava.

- Mas a vida é trabalho Pedro. Quer dizer..que é que queres da vida então? Queres parar de trabalhar? Penduras a gravata e vais para um café ler livros durante dez anos, é isso?

- Olha por exemplo.

- Tu não bates bem da bola.

- Também acho que não.

- Olha, admites! Nada mau!

- Mas tu também não bates oh magricelas. Olha pa essas olheiras..andas-te a tratar bem andas..E vais-me dizer que se fosses milionário trabalhavas o que trabalhas?

- Pá talvez, não sei. Gosto de pensar a vida dia a dia. Realmente esta merda fazia toda mais sentido com a Margarida ao meu lado..

- Tudo faz mais sentido com elas pá. Até para trabalhar, dá mais gozo ter uma gaja ao lado.

- Realmente. Pá no limite um gajo só pensa nelas não é?

- Só. Pá eu falo por mim. Isto sem mulheres não valia a pena.

- Zero. Imagina lá!! Um Mundo sem gajas!!

- Olha para ti era logo tiro nos cornos, se o que queres é ter putos a baloiçar-se em escorregas de ouro!!

- Foda-se somos mesmo uns putos.

- Uns putos de merda, cheios de sonhos na cabeça.

- E guito. Cheios da guita nos cornos.

- Cheios da guita. Nos cornos e nos bolsos.

- Foda-se hoje vou-me foder todo. Tou-me a cagar. Vou arrebentar duzentos Euros em copos.

- Johnny, tou preocupado contigo!

- Admito, tou a dar em doido com esta merda do trabalho.

- Somos uns putos insignificantes com sonhos na cabeça e vontade de os realizar.

- Sonhos sem conteúdo.

- Com ou sem conteúdo, são sonhos.

- Sonhos que nos castram a juventude pá..

- Há que dar algo em troca deles Jonas..

- Dar para receber. Dia-a-dia. E depois morrer.

- Há um princípio e um fim para tudo..

- E no meio, uma vida..

- Bem curta..

- Rodeada por mais 6 biliões de vidas, e um Universo inteiro!

- Somos mesmo insignificantes não somos?

- Um pedaço de nada Pedro. Mas há que maximizá-lo.

- Seja como for, há que maximizá-lo..

- Bem..

- Vamos à vida?

- Bora. Vou andando. Gandábraço pá. Adorei ver-te.

- Também eu! Fica bem!

- Vá, até à próxima!

- Olha!

- Diz!

- Se não nos virmos, Bom Ano!

- Ainda tamos em Outubro pá!!

- Então Bom Natal!

- Otário!

- Um abraço!

- Abraços

15 comments:

Carolina* said...

Dupont!
Tocaste na ferida!
Ainda ontem me voltei a fintar a mim mesma com perguntas e respostas. Comprar uma casa, ter filhos, dar-lhes o que precisam para poderem crecer sempre mais, construir património... começar a perpetuar-me... tudo isso é coisa querida, mas para o futuro! Não me imagino a perpetuar já! Agora apetece-me viver outras experiências, perpetuar momentos, não coisas! E levanta-se a dúvida de sempre que, desconfio, está a tornar-se eterna: começar a trabalhar para construir esse futuro agora? Ou viver o que me apetecer porque o futuro está no futuro e, esse, há-de chegar?

"Sonhos que nos castram a juventude pá.."

Sabes o que respondeu o Dalai Lama quando lhe perguntaram o que mais o surpreendia na Humanindade? Disse, Os Homens... Porque perdem a saúde para juntar dinheiro, depois perdem o dinheiro a tentar recuperar a saúde e, por pensarem ansiosamente no futuro, esquecem o presente de tal forma que acabam por não viver nem o presente nem o futuro. E vivem como se nunca fossem morrer... E morrem como se nunca tivessem vivido.

Não me consigo decidir. Acho que penso demais no futuro. Vivo e quero viver o presente, mas tenho que estar sempre a trabalhar para o que quero no futuro. Todos temos uma causa! O problema é quando ainda não me conheço completamente e a minha Causa sou Eu.

mankes said...

feel exacly the same thing caroline

m said...

ainda bem que eu não sou assim nem nunca vou ser!

Estabilidade ou Vida?

Vida, pq o Homem é um poeta à solta que tem de descobrir...

É tudo muito bonito, mas felizmente não tem de ser impossivel ou irreal!
;)

Docinho said...

Foda-se... genial a maneira como fazes isto. Genial mesmo. Confesso que (ainda) não penso assim tanto nisso, como se calhar deveria. Preocupo-me com o meu futuro e acho que estou completamente perdido mas tento não me preocupar demais com essas coisas. O natural é pensar, claro, afinal de contas o tempo não pára e não podemos ser putos estúpidos até morrer.

Curtia muito ter uma família, e uma casa e um emprego bacano mas ao mesmo tempo se me dissessem que ia morrer amanhã ou para a semana ia com um sorriso na cara. Em apenas 23 anos posso dizer que tive grandes e óptimos momentos, assim como maus também. No entanto posso dizer que vivi bastante e neste tempo vi coisas que muita gente não vê em 80 anos ou mais.

Contento-me com o que tenho enquanto procuro ter mais, é a única maneira... e deito-me sempre com um sorriso na cara!

AHT said...

Tudo isto acima escrito, soa-me a discurso de Miss Mundo.
Só falta escreverem um tipico e banal carpe diem.

Lorena said...

Mais uma bela conversação fictícia, que com o passar dos anos se vem tornando realista.

Presente ou Futuro?

A meu ver, desde que se acabe o dia com um sorriso na cara, vale a pena qualquer dos caminhos.

Mr B said...

LPM Vs LG

Lenitah said...

Mt bom... ;) e a transbordar de razao. No fundo o que é bom é ficar puto insconsciente para sempre...mas nao pode ser, não é?

Maria Strüder said...

Já não podia ler mais "Pá"!!!!
Lol bela conclusão.
Nascemos, crescemos e lutamos para sermos algo no futuro.
Adultos, trabalham para dar um futuro aos filhos.
Trabalho + trabalho + trabalho + respirar uma beca e morrer.
Ciclo natural das coisas, vamos é disfarçando com a suposta "viver a vida da melhor maneira" que na verdade é irreal.
Nasces e trabalhas por algo até morrer.

Maria Strüder said...

E rapazinho... já tinha tido uma exortação parecida num post chamado:
Questionar-me sobre mim torna-se banal em Maio 16, 2006.

El-Gee said...

o meu dia de anos, curiosamente

Maria Strüder said...

Coincidências assustadoras.

m said...

só podia ser touro:p

Maria Strüder said...

Curiosamente dou-me bem com touros

makoka said...

Quando é que chegará essa altura em que temos de começar a pensar em ficar para a eternidade? o tempo já parece pouco, assusta-me o quando ele começar realmente a ser pouco... muito obrigada pela visita =)este post era mesmo aquilo que estava a precisar de ler, conseguiste encaixar tudo de uma maneira tão certinha, que chega a assustar o genial realismo da coisa!!...já posso voltar ao trabalho agora... ate breve!