Friday, April 20, 2007

Gosto de ler

Cheguei a uma conclusão engraçada: é raríssimo não gostar de um livro.

Já não me lembro da última vez em que disse a alguém “Não gostei nada daquele livro.” ou “Esse autor é mesmo fraquinho!”

É verdade que andei à guerra com o Lobo Antunes pela sua Memória de Elefante, mas depois de me habituar àquela cabeça transtornada acabei por lhe dar o merecido valor que cabe aos génios. Inicialmente, também já me estava a passar com o Steinbeck com East of Eden, mas hoje em dia já não consigo adormecer sem avançar algumas páginas.

Geralmente, mesmo que inicialmente não goste por uma razão ou por outra, dou o benefício da dúvida aos livros e acabo por lê-los até ao fim. Acho que, à excepção do Conto de Duas Cidades do Charles Dickens, nunca deixei um livro de ficção a meio. Nem sei porque deixei esse. Acho que estava em pulgas para ler outro e acabei por não voltar a pegar-lhe.

Quando estou a ler um livro, mesmo que não esteja a gostar muito, encontro pequenos pormenores que me deliciam. Um pensamento, uma forma de o escrever, uma escolha de palavras. Pequenas coisas. Há livros que valem por si só do princípio ao fim e que fechamos, no final, com aquela agonia alegre de uma vida que vivemos e ficou para trás. Mas outros, que não têm a mesma majestade enquanto Livro, podem cativar-nos por breves passagens ou por todo um estilo.

Acho que é por isso que nunca desgostei de um livro – cada livro de ficção é um mergulho profundo na cabeça de outra pessoa, nos seus debates internos, no seu expressionismo, na esquizofrenia com que cria, do zero, gentes e lugares a quem dá vida própria. Mesmo que não nos agrade o estilo, a personagem, o enredo, temos perante nós a possibilidade de conhecer alguém com quem dialogamos apenas através do mundo que cria: o autor falando-nos através do espaço imaginário que criou para nós, nós respondendo-lhe através da nossa recriação pessoal desse mesmo espaço.

Para além de tudo isto, desconfio que o facto de geralmente só ler autores consagrados ou autores premiados também contribui para que eu goste dos livros que leio. Acontece que, regra geral, os Grandes autores escrevem – na minha opinião – para exorcizar na ficção os problemas que os afligem e os consomem. E assim, mesmo no mundo fictício de um universo ficcionado, o leitor têm acesso às fúrias, dúvidas, certezas e alegrias de quem lhe escreve.

Os Grandes autores são, na maioria dos casos, pessoas supremamente inteligentes ou profundamente perturbadas com a sua vida e o seu tempo. Por isso, é-me difícil não gostar de os ler, mesmo que não goste do que me escrevem.

Os grandes livros – que não são necessariamente os livros que mais nos entretêm – encerram anos e anos de dúvidas e interrogações, que só através da escrita são superadas.

É enriquecedor poder, enquanto leitor, aceder a essas questões e questionar, na nossa própria consciência, os mistérios que elas encerram e que levaram alguém a inventar todo um mundo inexistente, como forma de as varrer de si.

4 comments:

às vezes Ele, às vezes Ela said...

Precisamente!

Ele

Joana said...

Adoro ler...e adora ainda mais aquela sensação de começar a ler e só querer acabar. sou capaz de ficar uma noite a ler um livro. Mas no final.. fico sempre triste por já o ter acabado!

É bom ler e entrar no mundo fascinante dos livros!

Gosto de ler o que escreves.. e fico sempre feliz porque sei que a seguir a um post vem outro ;)

r said...

Sim, é esse factor de continuidade que não me faz sentir este blog como um livro.
No final de um livro entro sempre numa breve fase de 'depressão' por toda a história e os personagens desse livro terem 'morrido', vou-me deitar a reconstruír toda a história mentalmente e passo um dia pelo menos sem ter a coragem necessária para pegar noutro livro sabendo antecipadamente que terei de passar, no final, por período semelhante. É deprimente mas é isso que me alimenta a curiosidade e a avidez com que devoro um livro de capa a contra-capa.
Aqui, por mais que custe um post chegar ao fim (o da good ridance ficou me marcado na memória, por exemplo), sei que em breve virá um de igual ou superior qualidade, tudo ao mesmo estilo, ao teu estilo. Obrigada por isso

rita

Mariana said...

Enfim..tu gostas de ler...e nós de TE LER! Realmente os coments da malta "fã" deste blog não dispensam sempre um elogio, por mais pequeno que seja! No fundo todos queremos expressar o nosso profundo contentamento, e agradecimento pela tua partilha de "inteligência ou profunda perturbação" porque o TEU TESTEMUNHO, seja um simples post de música (tão pessoal), seja uma história que traz uma moral, seja numa imagem ou carta de demissão lol,FAZ-NOS ENRIQUECER, faz-nos aprender a pensar de uma outra prespectiva!
Nem todos nascemos com os mesmos dons,mas é bom que os usemos e os partilhemos de uma forma simples e enriquecedora. É bom para nós que ficamos felizes em descobrir que os temos, e para o nosso público, que mesmo não os tendo, pode disfrutar deles! Espero conseguir um dia levar a minha música da mesa forma tocante com que nos fazes chegar as tuas palavras...
Esta partilha torna-nos seres humanos mais completos!
Baci...
ainda n desisti de meditar