Wednesday, November 05, 2008

O maior aldrabao da historia de Sydney


Patrick McShee foi o maior aldrabao da história de Sydney, até se atirar de um penhasco abaixo entre Bondi e Tamarama.

A costa este de Sydney é das zonas mais bonitas do Mundo. Sao quilometros sem fim de rochas escarpadas em frente ao infinito rugoso do Oceano Pacifico, um enorme sem-fim de colossos de pedra e vegetacao, sobre os quais, la em baixo, ondas perfeitas esbarram durante dia e noite, enquanto o ciclo da vida se processa, manhas amareladas com os primeiros surfistas, tardes escaldantes em que o reflexo de mais uma barbatana de golfinho encandeia os olhos das gaivotas, fins-de tarde de potencia alaranjada, noites claras de reflexos incertos. E la ao longe, a cidade.

Entre Bondi e Cogee, construiram um caminho discreto mas bem localizado, onde dezenas de locais correm de manha e a ao fim do dia, e centenas de turistas passam a tarde ao sol e ao vento, a tentar compreender - e com razao - porque é que Sydney é a unica metrópole do Mundo onde a natureza vale mais que o betao. Patrick McShee aproveitou-se durante anos deste local para vender lentes falsas a gente de todo o Mundo.

A maioria dos clientes do subtil aldrabao nunca tinham confundido uma mosca com uma vespa a tres metros de distancia, mas centenas, milhares, talvez dezenas de milhar de turistas de todo o lado lhe compraram um par de oculos. Patrick McShee era, mais do que um optometrista, um vendedor de binóculos. Hoje, há quem até lhe chame um vendedor de ilusoes. Nao seria exagero chamar-lhe um vendedor de sonhos, como os jornais na altura anunciaram o dia em que foi acusado de burla e condenado a 20 anos de prisao, mais tarde reduzidos para 2, por bom comportamento: "The dreams salesman eyes prison for 20 years".

Para mim - na minha visao da história - Patrick McShee vendia fantasias, em troca de um par de dólares. Fantasias em formas de óculos. Patrick McShee foi o unico mago na historia da optometria. Um aldrabao, claro, que vendia magia por engano, mas quantas histórias nao se espalharam pelo Mundo todo, pela Europa, os Estados Unidos, o Japao, a Africa do Sul e todo o resto, quantas familias nao ouviram encantadas os relatos das visoes (nunca tidas) desde a costa de Sydney?

O crime de Patrick McShee nao foi vender oculos a quem nao precisava, foi vender realidades que nunca existiram. Gente em todo o Mundo - gente que ficou em casa, e da Australia so soube e sabe as historias de quem lá foi - vive, ainda hoje (porque mesmo as vitimas de McShee nao se confessaram, por vergonha) na ilusao das histórias contadas pelos clientes do ilusionista.

Porque Patrick McShee via baleias onde mais ninguem as via. Geralmente, estava no ponto mais alto depois da praia de Bondi, um promontorio esticado em frente ao mar, onde um murete baixinho construido em circulo ilude os turistas a sentirem-se as sentinelas de uma caravela.

Todos os dias passam varias baleias pela costa de Sydney; talvez dezenas, embora certamente nao centenas. Todos os dias alguem as ve, entre Maio e Novembro, mas a maioria das pessoas nunca as chega a topar. É preciso estar lá a hora certa (seja ela qual for) e saber reconhecer o jacto de agua la ao longe, e esticar os olhos, e desencantar uma barbatana, um corpo, um aproximar, e, com sorte, talvez ve-la chegar-se mais perto da costa, senti-la real. Passam muitas baleias em Sydney, e é um privilégio ve-las. Patrick McShee vi-as a todas, especialmente as que nao existiam. Na verdade, Patrick McShee era, muitas vezes, o unico que as via. 

Passava o dia sentado no murete, a espera de grupos de pessoas. Sempre gente nova. Os locais nao param, passam a correr, corpos musculados na sua busca obcecada de perfeicao. Nunca ninguem reconhecia McShee, portanto. Exerceu o seu numero durante anos, até ter o azar de usar o mesmo truque a frente de um jovem biólogo finlandes que estava a passar uma semana a observar baleias desde aquela zona e que, com o seu deprimido sentido de justica, reportou o aldrabao as autoridades, que prontamente montaram uma operacao disfarcada e o apanharam no acto passados menos de dois dias. (Mas isso é o fim da história.)

Patrick McShee sentava-se, esperava, olhava o mar, e, quando passava alguma grupeta, pai mae filho e filha, ou pai e mae, ou so pai, ou tres filhas, ou (na cabeca dele), "a puta que os pariu a todos", virava-se para o mar, cerrava muito os olhos, e berrava, excitado:

- Look!! A whale!!

As vitimas - sempre vitimas, McShee nunca falhou, a nao ser com o finlandes, e mesmo com ele so falhou à segunda tentativa - saltavam entao excitadas para junto dele, em busca do que nunca pensaram poder ver de terra,

- Where?? Where??
- There? Don't you see the water? There, perhaps 300 metres away
- I don't see. Where?? Mike, do you see?
- No daddy! 
- Daddy, where is the whale? I wanna see the whale daddy!
- Where is the whale mate?
- There, sir, don't you see? Oh it's coming closer..look!! Look!! Did you see, now!! It just blew some water..
- I can't see it..
- Where is the whale daddy?
- Shosh, dear, daddy is trying to see. Now you wait there. Ask this gentleman here. Sorry, what's your name?
- Pat, sir! At your disposal.
- So where do you see the whale Pat?
- Just wait. She'll pop out again, and the you will see. Where are you from?
- Ireland.
- Oh Ireland, nice. Look, you recognise the whale by the water coming out of the whole on the top of its body. After that, you can usually see a fin and, if you are lucky, a breach out of the water, the big animal jumping out - Oh!! There, look! See, there?? See the fin?? It's just here. It came closer. There, see! There, sir! 100 metres from here! Oh it just went for a swim underwater again! They always come up for a few seconds and then down again for five minutes..

Nunca ninguem via nada. Nunca ninguem podia ver nada. E nunca ninguem podia ver nada porque Patrick McShee nunca apontava para baleias quando lá estavam baleias.

Patrick McShee via baleias onde mais ninguem via, isto é, via baleias imaginárias, tao imaginárias que nem eles as via, e sabia que nao via. Patrick McShee nao via baleias, na verdade, nem queria. Patrick McShee via dolares, e, para os ver, vendia oculos a quem nao era capaz de ver baleias.

- Sir, excuse me, what is your name?
- Alex.
- You have a beautiful family. Look Alex, honestly, I mean..do you guys usually wear glasses or so?
- No, why?
- I am an optometrist, and, as a hobby, I also spend time watching whales from here and I have seriously never, ever, come across someone who failed to see a whale this close. I mean, Alex, mate, sorry, Alex, sir, seriously, it was just here. Did you for sure not see it?
- No..no! Where was it, for fuck's sake?
- There! There! See, just - oh!! look, again!! See the fin???
- NO! Where. Oh shit. Melanie, honey, do you see anything??
- No dear. Oh my god, are we blind??
- Where is the whale, mommy?
- I don't know dear. Wait, just wait, daddy will find it for you.
- Sir, do you have five minutes?
- Five minutes? Yeah, sure. For what?

E aí comecava o grande jogo de McShee: a venda. Criado o problema, McShee vendia a solucao.

- Just come with me..

Patrick McShee tinha uma velha carrinha a dez minutos dali, cheia de aparelhometros, projectores, livros, ponteiros e, acima de tudo, mil e uma armacoes de todas as cores e feitios, todas com as mesmas lentes de plastico. Plastico puro, transparente, aguado. Plastico. E era nessa carripana que convencia os turistas de que viam mal, oferecia a sua consulta de graca, dava o seu parecer, fazia-se de amigo, fazia-se de dificil, e no fim - manipulando as vitimas até à obvia conclusao de que tinham serios problemas de visao - vendia-lhes oculos de plastico. Oculos de plastico. De mil cores e feitios, um para a menina, outro para o pai, uns castanhos para o avo, "Oh, for you, gentleman, I will give you these ones, the lenses are stronger, your eyes are in bad shape, trust me!". Patrick McShee dava conversa, amizade, consultas, pareceres e receitas de graca, e a unica coisa por que cobrava eram oculos às cores com lentes de plastico.

Vendida a ilusao, vendia os oculos, e vendidos os oculos puxava-os a todos de volta ao promontorio, em busca da baleia, "They are fast animals you know..she's gone now..oh no..just you wait here, another will come in two hours, maybe, or three!", mas nunca ninguem esperava, os turistas têm pressa - quem nao tem pressa, quando um plano falha e ha mais tres planos pela frente? Ninguem esperava. La iam eles, familias inteiras de oculos novos, narizes empinando as novas armacoes, levando consigo a frustracao de uns olhos mal curados e uma baleia perdida.

Na verdade, levavam ainda a certeza de terem visto a baleia. McShee era um aldrabao galante; um bom homem, na verdade, e, para compensar os cinco dolares por armacao vendida, carimbava nos turistas uma verdade que todos levavam consigo.

"You know, sir. She was there. You saw it sir. You saw it. If I saw it, you saw it. We were looking at the same spot. Just you were not focusing well. You needed glasses. But you saw it. You saw the water blow out, then a big black fin smoothly popping out of the water and gently working its way back in the water. Sir, it was there. Your eyes saw it but did not  acknowledge it. It is in you. If you look well inside you, you know it is there. If only glasses worked backwards. But it is there, sir, in you, inside your head, the image of it penetrated your iris, your cornea, it went straight to your memory, you'll never lose it. You saw a whale in Sydney. You don't remember it - alas, even I have forgotten it by now! - but is is there. We both saw it. We both forgot it. She was dark and had half the fin out of the water. Oh, how it was beautiful, remember? And now you go, then, sir, and have a good day.."

E assim se iam os turistas, meio indecisos entre o que viram e o que nao viram, confusos com os oculos novos que nao pareciam fazer diferenca no passo em frente mas que continham neles o segredo de uma baleia vista uma hora antes. Centenas de milhares de familiares, amigos, e colegas ouviram, durante anos a fio, relatos de baleias que ninguem viu - e que nao so nao ninguem as viu como nunca existiram.

Aldrabao, burlao, mago, vendedor de oculos e binoculos, fantasias, sonhos, ou ilusoes. Amigo, comunicador, anfitriao. Optometrista, naturista, observador. Patrick McShee passou anos naquele promontorio, mostrando baleias a quem nao as podia ver e cobrando, por isso, cinco dolares por pessoa. Foi apanhado por um idiota finlandes frustrado por cinco dolares mal gastos, criminalizado pelos media e condenado por um tribunal a uma pena demasiado pesada. 

Odiado antes, durante e depois do julgamento, o Mundo pesou-lhe demais, agora que ja nem a carrinha lhe sobrava - demolida pelos servicos sanitarios de Tamarama - e, agoniado com a responsabilidade de uma liberdade sem direccao, atirou-se promontorio abaixo, em busca da expiacao por um crime pelo qual, na realidade, nao deveria ter pago: culpa.

Patrick McShee é o maior aldrabao da historia de Sydney, sim, mas tambem o mais charmoso, o mais engracado, o mais relaxado, e acima de tudo o menos profissional. Cinco dolares por um par de oculos. Eis um homem que nunca levou a sério o esquema que o matou de remorso. Cinco dolares, quando podia ter cobrado cinquenta. 

Cinco dolares por uma historia para contar, pela visao da mais magnifica das criaturas do mar, desde a costa mais bonita da Australia. Um preco irrisório a pagar por quem o conheceu, (esses ratos de esgoto que agora se escondem, cauda entre as pernas, pelo Mundo fora, desmentindo que alguma vez tivessem comprado oculos na Australia, por medo de perderem credibilidade em relatos que nunca foram verdade) e por quem da visao das suas baleias ouviu falar.

E um salto no mar, depois, no fim, moendo uma culpa que so teve quando os seus pares o julgaram.

Nao deixa de ser ironico que, alguem que foi o maior aldrabao de Sydney, nao só tenha feito milhares de pessoas mais felizes com o seu esquema (e por cinco dolares, cada!) como, posto isso, tenha terminado com a propria a vida por um sentimento de responsabilidade que nunca sentiu até ser preso e condenado publicamente.

Mas isso é como eu vejo a história, e certamente haverá quem pense que Patrick McShee nao passava de um miserável vadio que mereceu o terrivel fim que teve. É, no fundo, uma questao de perspectiva. 

Na verdade, cada um acredita no que quiser, e daí extrai as suas licoes.
 

6 comments:

Maxi Bróculos said...

Obrigado meu grande amigo por esta história.
Acho que é a primeira vez que escreve mais do que um parágrafo no teu blog. Em relação ao Patrick, considero-o acima de tudo(pelas palavras que o descreveste), um dos melhores vendedores de todos os tempos. No entanto não fez um crime de 20 anos de prisão, apesar de só lá ter ficado 2. Na minha perspectiva acho que a historia e a existência desta personagem só pode ter piada, e não se pode levar com raiva.

Obrigado Amigo

Leonor said...

Fartei-me de rir! Adorei! Ainda me ri mais, quando na minha profunda ingenuidade fui ver "ah, talvez até exista este senhor, vamos la ver no google" ... mas nada!

Vielen Dank

P.S. - dava um belo e magnifico livro infantil :)

Leonor said...

Mas tiravas os palavrões...

柳 绅 龙 said...

por acaso tive a oportunidade de comprar uns oculos (de sol) em sydney...
um pouco mais a frente talvez, ja em Bondi beach...
Se Patrick McShee falava com sotaque e cheirava a caril, entao se calhar foi ele proprio que me os vendeu...
oculos esses que a chegar a costa de Kaikura (NZ) me ajudaram a ver um par de baleias...
ou sera que nao vi??

mc said...

É bom ter de volta estas coisas!

Gostei especialmente do texto por que me identifiquei com ele.

Por duas razões: primeiro porque já vi uma baleia ao vivo e senti-me um priveligiado, acho que a maioria das pessoas morre sem nunca ter visto uma baleia; segundo porque revi o maior aldrabão da história de sidney num guia que tive no brasil. Só o gajo é que via golfinhos, o resto da malta olhava tarde demais.. Tive bastante tempo a pensar que o gajo nos estava a dar baile mas tenho de reconhecer que ás tantas lá vimos um golfinho. Quer dizer, era um boto, dos feios, coitados, os cor de rosa. Ainda assim, isso não prova que das outras vezes ele estivesse a dizer a verdade. A verdade é que nos causou excitamento (vendeu-nos esse sonho).

Consideras-te céptico? Claro que posso estar errado, mas para mim este texto (além de outras coisas) é um sinal de cepticismo.

Um abraço e boa sorte com tudo

p.s - É de mim ou quando mudas de "casa" ficas mais inspirado?

mc said...

(depois tens de dizer o que é que achaste do On the Road. Li-o este verão na paz da amazónia)
espero que como bom blogger recebas notificações a novos comments