Wednesday, November 12, 2008

Mais outro post em que perdi o moral da história ainda o texto ía a meio.

Vários assuntos me podiam ter preocupado e estimulado intelectualmente durante o dia, tal como analisar comparativamente a superioridade moral das partes envolvidas no actual confito na DR do Congo, ou frustrar-me perante a infinitamente tardia reaccao dos media perante um conflito que ja dura ha anos sem fim, ou tentar compreender melhor a relacao desta guerra com o genocidio do Ruanda, analisar o papel de Paul Kagame e do exercito ruandes nisto tudo, debater internamente se faz sentido apoiar moralmente uma rebeliao tutsi ha anos espezinhada na regiao, frustrar-me perante a insistencia da comunidade internacional em posicionar-se sempre do lado dos governos eleitos sejam eles quais forem, recolocar-me a questao se se trata mesmo de uma guerra étnica ou de uma guerra por poder e recursos naturais, enfim, podia ler e ler paginas e paginas na internet sobre este e outros conflitos, analisar e re-analisar, voltar ao início da minha busca incessante do porquê dos porquês da maior parte do que acontece em África mas, no meio disto tudo, a unica questao que me preocupou durante todo o dia é que o responsável máximo pelas centenas de milhar de refugiados que este conflito criou é o incompetente do Gutereres.

Impedido de trabalhar durante umas horas - felizmente esta preocupacao so me assaltou mesmo no final do dia - lancei-me numa busca pela internet e, entre outros temas de interesse, li alguns discursos do Alto-Comissário (nada maus, admita-se), e encontrei este magnífico e incrivelmente límpido documento que define as variáveis que fazem de um migrante um refugiado e qual o papel do Alto Comissariado das Nacoes Unidas para os Refugiados (UNHCR) na sua proteccao.

Estava, e estou, particularmente interessado no conceito R2P, Responsibility to Protect, em que a Comunidade Internacional se comprometeu, por escrito, a proteger refugiados quando estes nao tem nenhum país que os proteja. (Como o Guterres relembra num dos seus discursos, isto é um tema sensível hoje, já que nos dias que correm a opiniao publica internacional suspeita - devido a guerra no Iraque - que os grandes poderes internacionais intervêm apenas para prosseguir as suas proprias agendas, e nao em nome da humanidade.)

Em todo o caso, este documento lê-se bem e rapidamente, inclusivamente eu li-o no autocarro à vinda para casa. Alias, as tantas convenci-me que devia dar um ar muito sofisticado estar a ler sobre refugiados. Pareceu-me ter visto a loira ao meu lado, magrinha, bem feitinha, nariz empinadinho, mandar-me uma vibe aprovadora com aquele ar de "É sexy, estares aqui num autocarro cheio de gente a ler sobre refugiados depois de um dia de trabalho", pelo que lhe respondi com um sorriso sedutor de "Sabes, eu gosto destas coisas. Tem piada tambem estares interessada nestes assuntos", ao que ela me replicou, para minha desprevenida surpresa, numa tromba enjoada que dizia "Estás a sorrir para quem, seu tarado?", que profundamente me irritou ao ponto de me fazer mudar o meu sorriso para um esgar de desprezo em que com toda a naturalidade lhe lembrava que "Se eu fosse o Johnny Depp terias sorrido de volta, su-a PU-ta", de que imediatamente me arrependi.

Perdoada a Claire mentalmente, abandonei os meus diálogos telepáticos e, chamando a mim toda a coragem do ego ferido, arrisquei uma conversa - porque o Johnny Depp também comecou por andar de autocarro - e ela revelou-se, realmente, interessada no tema da DR do Congo, sobre o qual, aliás, sabia mais do que eu, no triste final do nosso diálogo mental, intuíra. Infelizmente, ela nao manifestou interesse em continuar a nossa conversa para lá da sua paragem o que, se bem que incompreensível, a deixa claramente em desvantagem face a mim, que pelo menos escrevi um post à pala dela (que nem sequer existe).

Em todo o caso, isto era tudo para dizer que esta brochura (*), como ja disse, é uma boa (e básica) introducao a qualquer conversa informada sobre migracoes humanas e que, entre muitas outras coisas (como por exemplo, e isto nao tem nada a ver, este livro), eu recomendo a quem me quiser ouvir.
 




(*) aqui, por favor, nao confundir o tema Refugiados com o tema Claire
 

3 comments:

Filipe Canas said...

Este texto é soberbo.

Pintulis said...

"...arrisquei uma conversa - Porque Johnny Depp tb começou por andar de autocarro..." lol

Muito bom!

MiSs Detective said...

tu és fenomenal a inventar conversas com as pessoas! fenomenal!