Saturday, November 18, 2006

Luzes frias na madrugada, vapores quentes no infinito

Nao e necessaria muita modestia para admitir que nao consigo por em palavras o que e a paisagem do comboio que abandona a fria madrugada de Lhasa para se aventurar pelos Himalayas fora em direccao a Pequim.

Quando chego a plataforma de embarque, luzes bacas iluminam carruagens de um verde metalico, que desaparecem na no horizonte da estacao. Vapores quentes escorregam, vadios, pelas bocas dos passageiros que se apressam em direccao as suas respectivas carruagens, fundindo-se, sob a escassa claridade do dia que ainda nao nasceu, com os fumos dos cigarros que os oficiais de bordo fumam, antes de mais uma viagem. Impecaveis, fardados com densos sobretudos que enrijecem os seus troncos direitos, inalam uma ultima quente nicotina, antes de partirem em direccao ao coracao das montanhas, onde o oxigenio e escasso e fumar e proibido.

Como sempre, estou atrasado, e o frio e para mim uma dor distante, de quando acordei no meu gelado quarto em Lhasa. O calor das horas, do entusiasmo, do ar sufocante do taxi que me leva ate a estacao, consola os meus musculos gelados e, quando me sento a janela da carruagem-restaurante, o cha quente que me aquece as maos frias nao tem necessidade de confortar o resto do meu corpo aconchegado.

Nao sou o unico que se arrepia quando a enorme serpente de quinze carruagens se comeca a mover devagar e irrevogavelmente em direccao a capital da enorme China. Um frances com quem partilharei o quarto, as noites de conversa e as discussoes sobre as agonias da existencia olha igualmente pela janela e, sei-o, pensa tambem no sentido da vida a bordo. Ele, a sua mae, uma americana e uma mao-cheia de chineses ficarao o resto da tarde, cada um a sua janela, a meditar sobre sabe-se la que Verdade.

Nada e verdade num comboio em andamento. Enquanto penetramos no arido planalto tibetano, onde manadas enormes de potentes iaques pastam ate a imensidao do horizonte montanhoso, questiono-me sobre a inconsequencia de qualquer decisao a bordo. Enquanto troco impressoes sobre trivialidades, amor e literatura colombiana com os meus tres novos amigos, questiono-me sobre a solidao de qualquer acto naquele comboio em andamento.

Cada enorme montanha e deixada para tras pouco depois de aparecer, e torna-se apenas num ponto solitario num passado distante. O mesmo acontece aos cavalos selvagens, aos vales glaciares, ao pequeno pastor que luta contra a altitude e acena ao progresso que o ignora na sua passagem veloz pela planicie. Tudo fica para tras menos nos, peoes do destino voluntariamente condenados a uma existencia movel, onde tempo e espaco perdem a sua preponderencia. Sou parte de um corpo em movimento, que nao controlo e do qual nao posso escapar.

Apesar da libertacao da enorme planicie, do frio que imagino la fora enquanto mais um cha me aquece o corpo, das assustadoras montanhas que aparecem gigantescas na distancia, estou distante da liberdade. Nao posso ir para alem de uma determinada distancia limitada pelo metal do comboio, nao posso ir para alem de um sistema social criado pelo destino que junta os restantes passageiros na mesma jornada que eu. Em 48 horas num comboio, cabe-me uma parcela de um pequeno mundo novo, que ajudo a nascer e a sobreviver.

Os restantes passageiros tornam-se gradualmente no meu unico Mundo: sao os outros elementos de um pequeno e unico ecosistema que divaga pausadamente pela montanha acima. Ha uma total impotencia face ao destino - tudo o que faco, cada decisao que tomo, nao e totalmente independente. Estou num comboio do qual nao posso sair. Gradualmente, apercebo-me da minha inocencia, da minha impotencia, do ridiculo das minhas accoes: ha algo maior que as limita, uma entidade superior a mim, maior que as montanhas que agora desaparecem para dar lugar a uma infinita planicie coberta de neve e gelo: o Espaco. A Falta de Espaco.

Nessa tragica letargia, descontraio entre mais um cha, e aceito a minha impotencia, acabando por adorar o facto de que durante 48 horas nao tenho mais nenhuma responsabilidade para alem de viver e respirar. Mesmo que quisesse, nao poderia nem produzir nem decidir nenhuma accao radical que mudasse o que quer que fosse na minha vida e no Mundo. Entre Lhasa e Pequim, primeiro penetrando no mais remoto planalto do Mundo e depois cruzando o coracao da China industrial, vivo numa linha paralela ao Mundo real. Uma linha densa e metalizada.

Uma linha de comboio.

Enquanto os quilometros passam, a vida a bordo repete-se numa inconsequente rotina: ir ao quarto buscar algo, voltar a carruagem-restaurante, conversar com quem la esta, abandonar a mesa e ver a paisagem, fazer olhinhos a hospedeira, pedir uma refeicao, continuar a conversa, ler, fazer olhinhos a hospedeira, ir ao quarto buscar outra coisa qualquer, voltar a carruagem-restaurante, conversar com quem la esta, abandonar a mesa e ver a paisagem, pedir uma refeicao, continuar a conversa, fazer olhinhos a hospedeira, ler, pedir uma cerveja, fazer olhinhos a hospedeira, dizer boa noite as duas senhoras, pedir outra, discutir literatura com o frances, pedir outra, tentar falar chines com a hospedeira, pedir outra, discutir o sentido da vida com o frances, pedir outra, discutir politica com o frances, pedir outra, desistir de olhar para a hospedeira, voltar ao quarto, acabar a ultima cerveja, ler, dormir, acordar e repetir tudo de novo.

E nos intervalos, reflectir sobre tudo. No comboio que so para quatro vezes em 48 horas em cidades chinesas anonimas mas com mais habitantes que o meu pais, uso o tempo paralelo para ordenar as minhas ideias, ler o que nao leio durante o resto do ano, comover-me - quase - com as vistas intocadas que vejo da janela. A linha que une Lhasa a Golmud, durante as primeiras 12 horas, e a mais alta do Mundo e atravessa territorios que o homem nao habita. Enquanto o meu olhar se debruca pelo horizonte, penso no privilegio de ali estar, a atravessar todo o Tibete, o Tibete remoto, distante, frio e desumano, o Tibete virgem e desabitado, apenas desafiado pela poderosa maquina do meu comboio, que me protege e me transporta, para longe, para muito longe, sem parar, sem se queixar, sem interromper o ritmado passar das horas sobre os carris, ate ao Sol se por, ate se levantar, ate se por de novo, ate se levantar de novo, alaranjando finalmente sob a poluicao dos suburbios de Pequim.

Estou eu e mais 1000 passageiros. Sou mais um dentro daquela maquina que nos transporta cada um rumo a sua vida real, mais um passageiro anonimo numa linha premeditada.

Depois do frio planalto tibetano, das escuras noites dos Himalayas, do Norte da China e de muitas relacoes criadas ao sabor do tempo, o comboio abranda pausadamente as oito da manha do terceiro dia, e aparecem os primeiros predios, na manha baca e escurecida. Com o passar dos minutos, a serprente reduz a sua violenta marcha para um desolado trote. Guinchando numa estafada agonia, para finalmente, exausta, fria, massiva, sob as arcadas geladas de uma movimentada estacao.

Chegamos a Pequim.

4 comments:

Lorena said...

Existirá uma relação de causa/efeito nos copos de cerveja e consequentes olhinhos à hospedeira? LOL

Anonymous said...

PARABENS POR TODOS ESTES TEXTOS E MARAVILHOSAS DESCRIÇOES.TIVE MUITA PENA DE NAO O PODER ACOMPANHAR NESTE FANTASTICA AVENTURA.MAS GRAÇAS AOS POSTS PUDE ACOMPANHAR A VIAGEM PASSO A PASSO.ESPERO QUE POSSA ALMOÇAR CONSIGO O MAIS DEPRESSA POSSIVEL...GRANDE BEIJO DA COMADRE

Nikita-El-Amar said...

Nossa! Que manancial de textos e experiências você tem a compartilhar... Adorei sua visita ao Dança Comigo e terei que tirar um tempo para te ler e , quiçá, compreender um pouco desta pessoa que parece ser maravilhosa.

Você viaja pelo Tibet, ao que percebi, e mora em Lisboa. Tenho amigos lá (em Lisboa).

Apareça sempre que puder. Vou te acompanhar nesta viagem. Vou ler seus textos desde o começo.

beijos grandes.

Nikita-El-Amar said...

Conforme prometido, li todos os textos, desde o início. Ufa! Quase um dia inteiro na frente do computador, lendo, lendo, lendo e viajando.

A China não me apetece, sou sincera. Mas, pelos teus olhos, começo a ter uma certa simpatia... longe... mas um sentimento positivo.

Não sei se faria tal viagem. Gosto do oriente, mas, até mesmo pela origem de meus antepassados, sou mais amiga da Turquia, do Líbano, enfim, das minhas raízes.

Sou formada e atuo na área jurídica, e, ao mesmo tempo, professora de dança do ventre. Uma mistura bombástica, sem dúvida, dicotômica, mas que me reflete bem.

Adorei o seu blog. Vou linká-lo no Dança e acompanhar-te-ei por lá.

beijos grandes.