Wednesday, November 15, 2006

Dias tibetanos

Uma manha no Palacio

Em Lhasa, seria capaz de passar uma boa temporada. Evidentemente nao o inverno todo, como fara um brasileiro que anda ha um ano as voltas de bicicleta pela China, mas umas boas semanas. Acontece que, como sempre, tenho muitos planos para pouco tempo, pelo que terei de desdobrar as minhas noites em tempo util de dia.

No segundo dia, subo o que me parece ser uma montanha pouco depois de acordar. Estou ainda meio ensonado, mas nao o suficiente para nao reparar que essa montanha e o gigantesco Palacio de Potala, que tem uma subida tao ingreme e inclinada ate a sua entrada, que me leva meia hora e meia duzia de conversas com outros destruidos turistas e peregrinos, ate chegar la acima. Uma senhora chinesa deve ter achado piada a minha cara de esforco e tem a simpatia de esperar por mim de 5 em 5 minutos, sorrindo-me quando eu a alcanco. Dado que o seu ingles e o mesmo que o de um mudo, deduzo que so me espera para me exibir a sua condicao fisica, pelo que apos a terceira espera deixo de lhe sorrir de volta. E a minha primeira inimiga na China. (Seja como for, a saida do palacio duas horas depois sorri-me com genuinidade e, no meu intimo, fazemos as pazes.)

O Palacio de Potala e tal como eu o sonhava: enorme, mistico, frio e riquissimo. E escuro, castanho, cor-de-vinho. E dourado, ardente. Tenho a sorte de nao ter um guia a empurrar-me por ali fora (o que muito prazer me da, ja que se tivesse vindo ate Lhasa por terra nao poderia andar pela cidade desacompanhado de um guia), por isso levo o meu tempo nos patios interiores rodeados de cortinas bordadas a ouro, nos terracos ventosos com vista para a cidade e para as montanhas, nas capelas recheadas de enormes figuras onde os fidelissimos peregrinos acendem as suas velas de manteiga, deixam as suas notas e murmuram as suas oracoes. Fiquei surpreendido com a religiosidade do local, uma vez que esperava que as autoridades chinesas tivessem mundanizado a visita ao Palacio. De facto, assim nao acontece, e se a mim me custa os olhos da cara para la entrar, aos tibetanos e oferecida nao so a entrada como tambem a total liberdade religiosa no local.

Isto transforma o Potala em mais uma experiencia budista do que numa visita cultural. Na verdade, deve ser um dos poucos sitios no Mundo onde peregrinos nomadas se prostram no chao perante tumulos de diamantes ou estatuas de ouro macico. Toda a decoracao me transporta para um mundo paralelo, mistico, oriental. Nada neste palacio se assemelha a algo que eu ja tenha visto nem sentido. E impressionante a riqueza das capelas e dos tumulos, face a elegante sobriedade dos aposentos dos sucessivos Dalai Lama (sendo "sucessivos" uma escolha de palavra totalmente desapropriada, uma vez que se trata sempre da mesma pessoa reencarnada). A cada passo que dou, escada de madeira que desco, obra que admiro ou incenso que cheiro, dou gracas por ter lido o extraordinario relato de Heinrich Harrer sobre a vida no Tibete genuino nos anos 50 deste seculo, nos seus "Sete Anos no Tibete", em que inclusivamente conta como se tornou tutor daquele que e o "actual" Dalai Lama. Nas minhas habituais deambulacoes mentais, imagino-me eu proprio frente ao Dalai Lama, numa das muitas salas onde ele passou os seus anos de infancia e primeira juventude, antes do exilio para a India. As salas estao tao acessiveis e bem preservadas, que da para sonhar acordado durante muitas horas no Palacio, viajando no tempo ate aos dias em que Lhasa era uma cidade independente, pequena, viva, isolada e - admitamos - altamente sub-desenvolvida.

Sem duvida sem o encanto desses dias, em que milhares de monges vagueavam reverenciais pelos patios e capelas do palacio, a visita de hoje ao Potala mantem-se uma experiencia muito viva, muito intensa e, mais do que isso, muito comovente: nao pode haver outra sensacao senao essa, quando ao olhar do enorme terraco de onde outrora o pequeno Dalai Lama olhava o seu povo com um telescopio, se avista hoje uma enorme e impessoal praca chinesa, numa provocacao obvia e desumana ao povo tibetano. Alias, ha outra sensacao possivel: furia. Mas aprendi com o budismo que devemos evita-la.

Licoes de Teologia

Depois do meu regresso habitual ao circuito do templo de Jokhang e de me deixar perder de novo pela Lhasa antiga, e hora de me meter num autocarro em direccao ao Mosteiro de Sera. Para alguem interessado no passado da cidade, os mosteiros que a rodeiam sao a forma mais genuina de tentar aprofundar o que foi a cidade antes da invasao chinesa. De facto, as ordens de monges sempre foram a principal forca politica no teocratico Reino do Tibete e mantem hoje as suas praticas imtemporais praticamente intactas, ao contrario dos leigos cidadaos da cidade, cuja cultura esta hoje confinada ao centro de Lhasa, onde me perdi no primeiro dia e onde regresso a toda a hora. Assim sendo, uma visita a um mosteiro e um salto no tempo, ja que a presenca policial e militar chinesa e reduzida ao minimo nestes locais, e a fe budista-tibetana e ai vivida com toda a sua forca historica. O facto de se poder observa-la ao vivo, atraves das vidas dos monges, e um marco tremendamente importante da visita a Lhasa, porque demonstra com genuinidade precisamente o aspecto mais importante do Tibete desde ha muitos seculos: a religiao.

Um mosteiro no Tibete nao e como os austeros mosteiros catolicos europeus, mas antes um complexo de templos, dormitorios, capelas e jardins, que formam uma vila onde os monges desenvolvem a sua vida monastica. O Mosteiro de Sera e portanto um enorme oasis de paz, cheio de peregrinos e monges em cada esquina. Dado o silencio que envolve todo o recinto, sao cenas comuns ouvir passos numa esquina de pedra e aparecer um velho monge trajado de cor-de-laranja contrastando com as paredes de pedra e cal branca. Perco muito tempo passeando entre os edificios, maioritariamente simples mas dando lugar, aqui e ali, a enormes e ricos templos com tectos de madeira e esculturas douradas, tudo isto num cenario de montanhas nevadas, com vista sobre a cidade la ao longe.

A dada altura, do cimo de um telhado um monge comeca a tocar um gongo ritmadamente, transformando toda a atmosfera num envolvente misticismo. Os fieis prostram-se perante o templo, num reverencial silencio perante o som grave do instrumento. Congratulo-me mentalmente por estar ali naquele preciso momento, ja que poderia estar em qualquer outro lugar do enorme recinto. Passam os minutos, e comecam a surgir monges de todos os cantos. A principio, nao perco a oportunidade unica de fotografar conjuntos daqueles (para mim) exoticos personagens de quase-ficcao. Depois, caio no ridiculo de perceber que quanto mais fotografo mais aparecem, chegando ao ponto de estar rodeado de monges de cabelo rapado a caminhar na mesma direccao ao som de um gongo tocado por outro monge no cimo de um telhado. Perante esta cena, desisti alegremente da minha obsessao fotografica e absorvi o momento com todos os sentidos.

Nao o sei na altura mas venho a saber pouco depois que esta prestes a comecar uma das mais extraordinarias manifestacoes culturais a que alguma vez assisti, e com tal intensidade, genuinidade e indiferenca para comigo e restantes turistas que observam a cenam estupefactos, que sou forcado a reconhecer a minha total insignificancia para aqueles compenetrados monges.

Esta prestes a comecar a licao diaria. Apesar de nao perceber sequer uma palavra do que e dito, tenho perante mim uma cena surreal: varios monges reunem-se sentados em grupos num jardim cheio de arvores, cabendo a cada grupo um monge mais adulto, de pe. Este questiona os seus discipulos em alta voz, batendo constantemente e com violencia com o pe no chao e com uma mao na outra, erguendo a voz enquanto o faz. Na minha hora ali, nao percebo o porque desta efusividade nem a que conteudo do discurso corresponde esse gesto teatral. Mas compreendo quao seriamente e levada esta licao, pelas caras graves dos alunos, pelas respostas que dao a medo, pelas reaccoes do professor. Sao dezenas, talvez centenas, de conjuntos, e naquele jardim devem estar pelo menos 200 pessoas a falar em simultaneo, todas vestidas de igual, de cabelo rapado e berrando numa lingua para mim incompreensivel. A experiencia e intensa e nenhum estrangeiro se atreve a falar, apesar dos momentos de boa disposicao que surgem entre os grupos de monges aqui e ali. A medida que o tempo passa, a minha cabeca ja nao passa de um receptor de zumbidos anonimos em alta voz, cada vez mais velozes, porque com o passar das discussoes os alunos ganham coragem e as tantas ja discutem entre si, levantando-se e batendo o pe e as maos, para entusiasmo dos seus suados mestres, cujas veias se vislumbram ja do alto das suas concentradas cabecas rapadas. E extraordinaria a concentracao dos alunos, a lucidez dos monges e a fluidez com que ambos parecem conseguir debitar temas teologicos sem parar para respirar, com um entusiasmo e um fervor de fazer inveja a qualquer intelectual do Mundo inteiro. E ocorre-me pensar que, mesmo que compreendesse o que diziam, jamais poderia compreender porque fazem aquelas licoes ali e porque as vivem com aquela intensidade. A presenca de turistas e peregrinos transforma toda a cena num teatro que, de forma alguma, aquela reuniao pretende ser. Basicamente, tenho a atitude de um espectador de teatro mas os actores sao personagens da vida real, indiferentes a opiniao ou reaccoes da plateia.

Passo ali mais de uma hora, estupefacto e maravilhado, e quando abandono o jardim estou estafado e cheio de sons na cabeca. Quando chego a Lhasa a noite comeca a cair, ideal para mais uma ida ao cafe americano, onde encontro precisamente as mesmas pessoas do dia anterior, o que me deu o conforto de que precisava, porque os dias estao cada vez mais frios e nao ha nada como um cafe quente e uma conversa casual para os aquecer.

Rodas no ar

Apesar do bem-estar que Lhasa exala, continuo inquieto depois do meu segundo dia: nao consigo deixar de pensar em como sera a vasta planicie tibetana para la desta cidade, como serao os pequenos mosteiros vistos ao longe, as montanhas sobre a estrada, os lagos, bandeiras de oracao, os iaques a pastar. Tudo isto sao cenas do meu imaginario que tencionava viver na minha vinda frustrada de Kathmandu ate Lhasa por terra.

Assim sendo, decido que definitivamente prefiro dormir pouco mas de curiosidade satisfeita, razao pela qual me levanto as 6 da manha do terceiro dia para apanhar um autocarro ate Shigatse. Tinham-me dito que sao 280 kms. Que delicia. Pelo menos cinco horas de paisagem!

Francamente, nem sei bem o que me espera em Shigatse, e a minha alvorada e mais motivada pela jornada ate la do que pelo destino. Aparentemente Shigatse e a segunda cidade do Tibete, o que me garante que no dia seguinte conseguirei transporte de volta ate Lhasa, de modo a poder chegar a tempo de um dia depois apanhar o comboio ate Pequim. E este criterio desonroso que me leva ate um destino magico, que, para minha absoluta surpresa, suplanta ate as paisagens magnificas que tenho de atravessar ate la chegar.

A madrugada e escura e fria em Lhasa, e descubro o autocarro pelos fortes farois que iluminam a rua deserta. Esta estacionado no meio da rua. Enfio-me ansioso no gelado banco da frente, para poder apreciar melhor a viagem, e aos poucos o autocarro comeca a encher. Como ja esperava, sou o unico nao-tibetano ali dentro e transformo-me num verdadeiro e involuntario bobo da corte. A minha maquina digital, que fotografa aqui e ali as cenas da violenta paisagem, torna-se numa atraccao cientifica para os meus (materialmente) humildes companheiros de viagem, provavelmente de volta as suas casas no campo depois de uma jornada na sua capital. Familias inteiras com sacos sem fim atulham o autocarro, nos seus trajes caracteristicos, gorros de pele, trancas no cabelo, termos de cha quente.

Apesar da madrugada, tenho os olhos bem abertos durante toda a viagem: afinal, desde pequeno que sonhava com o que seria a paisagem tibetana. Desta vez, sonhei bem, e as montanhas enormes, as planicies castanhas, os iaques que pastam, os pastores de cabras e a neve nos picos mais altos acompanha-me durante cinco brilhantes horas, em que me apercebo de quao arida e infinita e esta regiao. Precisamente como eu a imaginava. Ha poucas coisas melhores na vida do que ver materializada em realidade uma imagem mental. Tenho essa sorte neste estranho autocarro. E o mais engracado de tudo isto e aquelas familias tibetanas provavelmente pensarem que devo estar perdido do meu mundo de iguais, enfiado num autocarro no meio do Tibete, em direccao a uma pequena cidade no meio do planalto. Nao sabem (nem podiam saber, porque nao tem neles o conceito de viajar por prazer) que estou exactamente onde queria estar, naquele preciso momento da minha vida. Alias, de entre todos os companheiros de viagem possiveis, seriam aquelas familias, aqueles velhotes desdentados a rezar, aquelas criancas sujas de feicoes perfeitas, quem eu escolheria para estarem comigo na minha pequena travessia da vida tibetana.

Os chineses construiram uma magnifica estrada de alcatrao atraves de todo este cenario remoto, o que, se desmistifica algo do encanto que toda esta imensidao provoca, tambem torna a viagem mais comoda, especialmente se comparada com as minhas de viagens de autocarro pelo Nepal. Tenho pena de nao poder mandar parar o autocarro e sair dali, para longe da estrada, para onde o Tibete e menos chines e mais rural, mas esse plano nao passa de um sonho infantil e tenho de me contentar em imaginar o que esta para la de todas estas montanhas e vales, que parecem nao acabar. Para alem disso, consola-me saber que este progresso alcatroado ainda so chegou a ligacao entre Lhasa e a fronteira do Nepal (um trecho da qual eu estou a percorrer) e que a restante imensidao do gigantesco territorio tibetano se encontra ainda entregue a si proprio. Para alem do mais, os meus companheiros de viagem sao o espelho vivo do Tibete remoto e rural. Tambem para eles, vejo-o, um autocarro nao e um conceito familiar.

Shigatse

Nos seus 3.900 m acima do nivel do mar, Shigatse e uma cidade antipatica para quem deseja perder-se pelas suas ruas, mas so tenho uma tarde aqui e um corajoso pacto entre a minha curiosidade e a minha consciencia leva-me subir a pe toda a cidade, ate ao cimo da colina onde Shigatse se anicha. Originalmente, Shigatse foi construida no sope de uma enorme colina (colina aqui representa cerca de 4.500m), mas a chegada dos chineses estendeu-a dai para a frente, de maneira que hoje a vista do cimo da colina mostra a antiga vila quase anexada a montanha e o desenvolvimento chines dai para a frente, ocupando uma boa parte do vale em que a cidade esta construida.

Mesmo na sua parte moderna, Shigatse e uma pequena cidade, perdida no meio de enormes montanhas. Imagino que antes da chegada do alcatrao esta fosse considerada uma cidade distante de Lhasa. As suas vielas antigas medievais irradiam paz nas suas paredes brancas, janelas coloridas e bandeiras de oracao que esvoacam ao vento. Passeio-me por ali praticamente sozinho, saudado aqui e ali por algum residente amigavel. Quando dou por mim, estou bem alto na colina, percorrendo-a paralelamente a cidade. Por todo o lado enormes pedras estao pintadas com mantras budistas ou com figuras divinas. Ha bandeiras de oracao em cada angulo, aqui e ali um pequeno altar. Iaques e cabras pastam ali. E la em baixo, as pequenas casinhas da cidade velha com os seus telhados planos pintados com simbolos religiosos e mais la a frente a cidade chinesa. E depois dela as montanhas. E em cima delas um ceu azul sem nuvens.

E no topo disto tudo eu, sozinho, silencioso, a admirar aquilo tudo e sem perceber bem o que faco ali, no topo de uma colina, rodeado de iaques e pedras com frases em tibetano, no mais profundo silencio, apenas interrompido pelos canticos religiosos de alguns trabalhadores, que tentam arduamente cultivar sabe-se la o que naquela arida montanha.

Nao e a primeira vez que me questiono o que faco em determinado sitio, durante esta viagem, nao por arrependimento ou ignorancia, mas por incredulidade para com a solidao e paz que se consegue alcancar por estas latitudes, sem dar por isso. Mais uma vez penso que dificilmente os chineses conseguirao penetrar na religiosidade de todo este territorio.

Peregrinando

Sou apanhado desprevenido quando comecam a aparecer rodas de oracao por toda a montanha. Sucessivas series de enormes rodas douradas acompanham o trilho a medida que dobro a colina, e com elas comecam a aparecer tambem os fieis tibetanos. Comeco tambem a vislumbrar enormes telhados dourados la ao fundo. Estou a chegar ao Mosteiro de Tashilhunpo, uma das mais importantes ordens tibetanas e onde pertence o Panchen Lama, a segunda figura espiritual do Tibete depois do Dalai Lama.

Acontece que os chineses tem encarcerado o Panchen Lama verdadeiro, tendo colocado no seu lugar um rapazinho escolhido e educado por eles. O verdadeiro Panchen Lama esta preso em paradeiro incerto e e considerado o mais jovem prisioneiro politico do Mundo. Nao sei onde esta o Panchen Lama chines, mas em todo o caso e uma figura insignificante e meramente politica. Mais uma vida desgracada as maos deste governo. Ou duas.

Percorro ansioso e surpreendido toda a montanha abaixo em direccao ao Mosteiro, e quando chego ca abaixo e olho para cima deixo-me espantar pela beleza do cenario, que nao era visivel da zona residencial de Shigatse: milhares de rodas de oracao brilham douradas ao Sol, bandeiras de oracao esticam-se por entre os varios picos da montanha, dezenas de pessoas percorrem os trilhos poeirentos, no que venho a perceber ser um circuito em redor da montanha e que culmina na entrada do Mosteiro. Mais uma vez em total inconsciencia, fiz parte de uma peregrinacao tibetana. Ainda bem que nao tive medo da altitude.

Um cha com sabor a manteiga

O meu dia ja tinha sido suficientemente rico para me retirar satisfeito, mas tinha pela frente um complexo gigantesco de templos dourados e casinhas brancas, casa de muitos dos mais iluminados intelectuais budistas de sempre, do contrapeso politico ao poder dos Dalai Lama. Como sempre, deixo-me perder neste cenario magico, para o qual olho com estupefaccao a cada passo que dou. O mosteiro e enorme, sao centenas de edificios brancos, ruelas estreitas, monges em cada esquina. Visto da entrada, e um enorme aglomerado de casinhas brancas, dominado por tres enormes templos dourados, encostados a uma colina castanha repleta de rodas de oracao douradas e bandeiras de oracao ao vento.

Como de costume, nao ha ali uma unica cara ocidental. As vezes, pode ocorrer que a "segunda cidade do Tibete" e um centro super povoado de ocidentais em busca de espiritualidade, mas a verdade e que, tambem para minha surpresa, esta e uma regiao ainda remota para o turista ocidental. Mesmo em Lhasa, os turistas que se cruzam na rua cumprimentam-se invariavelmente com um sorriso cumplice, num reconhecimento mutuo de quem teve de apanhar no minimo duas conexoes aereas (no meu caso quatro) para la chegar e de quem prefere o frio Outono tibetano a uma praia das Caraibas para ocupar o seu tempo livre. Todos os poucos que ca estamos temos algo em comum, especialmente porque o Tibete nao proporciona actividades de lazer ou diversao: quem ca vem, vem para conhecer o sitio, as pessoas, a religiao, a ocupacao chinesa. Nao ha aqui gente a fumar charros em esplanadas, nao ha bares com musica americana aos berros, nao ha turbas de gente recem-saida do liceu em busca de emocoes fortes. O turista que vem ao Tibete vem, invariavelmente, em Busca. Nao exclusivamente numa romantica busca espiritual ou religiosa, mas acima de tudo em busca de Genuinidade. O numero de estrangeiros no Tibete e tao reduzido que, nestes quatro dias, nao consegui dialogar senao por gestos. Nem sequer consigo que algum tibetano me explique a que horas parte o proximo autocarro ou onde fica determinado mosteiro. Quando aponto para o relogio para saber quanto tempo demora uma viagem, riem-se e apontam para os seus proprios relogios. Nao ha dialogo
verbal possivel.

Mas quando entro no Mosteiro de Tashilhunpo, o meu pensamento esta longe dessas reflexoes. So penso na imensidao daquilo, da pacifica vida monastica, de como os monges mantem o seu dia-a-dia inalterado ha seculos. Passam de todas as idades, desde reguilas criancas aprendizes ate velhos monges apoiados em bengalas. Todos fazem parte daquele lugar, daquela vida retirada. A medida que avanco para o coracao do mosteiro, sinto-me a recuar anos sem fim, e sinto admiracao por aqueles homens que dedicam a sua vida a meditacao e a aprendizagem.

Os monges nao estao, no entanto, proibidos de sair dos mosteiros, e muitos regressam as
suas casas nas cidades depois de um dia no mosteiro. Especialmente em Lhasa, e comum ver monges na rua, muitos deles a pedir dinheiro ou sentados no chao em grupos de oracao, como um desencantado violinista no metro de Lisboa. Muitas vezes, ao ve-los ali expostos aquela condicao de pedintes, questiono-me qual a sinceridade daquelas oracoes que debitam a ceu aberto: sera que rezam por quem passa na rua e esperam assim uma esmola, ou sera que precisam da esmola e que aquelas oracoes nao passam de um pequeno concerto sem significado intimo para os monges famintos que o cantam? Esta questao preocupa-me, porque encerra a genuinidade da Fe de muitos monges tibetanos: sendo comum cada familia mandar pelo menos um filho para um mosteiro, ser monge se calhar e hoje uma profissao como outra qualquer, com a agravante de nao ser remunerada. Pergunto-me quantos destes misticos personagens nao escondem por detras do seu habito profundas duvidas de fe.

E se eles as tem, como posso eu nao ter?

Em Tashilhunpo esta duvida nao tem sentido, porque aqui nada falta aos monges, ja que este mosteiro esta destinado aos filhos das melhores familias: aqui, a espiritualidade e verdadeira e unica e os monges estao concentrados na sua busca espiritual.

No final do dia, enquanto procuro a saida daquele labirinto monastico, entro por uma pequena porta de madeira e dou de caras com o mais extraordinario patio que jamais tive a oportunidade de ver fora dos livros. E um claustro com uma dimensao consideravel, a sombra do Sol que ja desaparece por detras de dois andares em madeira. As paredes tem pintados dezenhas de milhares de pequenos budas todos iguais. No centro, um enorme poste de mais de vinte metros coroado por uma densa pele de iaque no seu topo. Numa das extremidades, ergue-se um enorme templo de madeira e ouro, tao grande que quase nao vejo o topo. E no meio disto tudo, dezenas de monges, cada um com a sua farda, que vao aparecendo pelas varias portas que dao acesso ao claustro. Mais uma vez sem saber como, caio no meio da reuniao de todos os monges do mosteiro. Sao centenas, desde os mais novos aos mais velhos, e saudam-me cordialmente mas com alguma desconfianca. No entanto, ninguem me manda embora e, desconfiando de que os monges nao se estao a reunir em vao, decido esperar sentado nas escadas de pedra. Alguma coisa vai acontecer e quero estar la para ver.

Passam longos minutos em que o meu desconforto por estar num lugar que nao e meu e compensado pela observacao viva, real e priveligiada que tenho das relacoes humanas dos monges. Sao pessoas como todas as outras, e por detras da sua grave aparencia alaranjada brincam uns com os outros, falam alto, empurram-se: no fundo, gozam aquele momento de lazer. Alguns tem umas enormes capas e chapeus verdes e parecem mais recatados. Nao fosse o ambiente festivo daquele patio, e ter-me-ia ocorrido algum assustador pensamento de estar perante uma seita misteriosa, especialmente com aquele enorme idolo de iaque ali no meio.

Mas nao. A suposta seita reune-se no topo de umas escadas que dao para o primeiro andar do claustro e comeca a entoar um cantico grave e monocordico. Por sorte, estou sentado mesmo no meio deles e deixo-me envolver pelo momento. Ninguem me manda embora e ninguem parece reparar em mim para alem de um ou outro mini-monge mais reguila, por isso quando se juntam em fila e desaparecem por detras de uma pequena porta de madeira, decido que nao e momento para cerimonias e sigo-os. A cena deve parecer estranha: uma enorme fila de monges budistas com chapeus verdes na cabeca desaparece dentro de uma misteriosa capela e no meio deles esta um intimidado mas decidido portugues, totalmente desfasado da musica e do traje, desaparecendo tambem ele pela porta, entre canticos e lentos passos.

La dentro, finalmente o monge mais adulto parece reparar em mim. Arrisco um sorriso timido que parece conquista-lo e sou convidado a ficar. Tambem eles nao devem saber o que fazer perante alguem que os segue para o seu recinto de oracoes para la da hora de fecho do mosteiro. Admito para mim proprio que fui longe demais, mas o dedo do monge aponta para um recanto na escura parede um pouco afastado das almofadas onde os monges se reunem em circulo e decido ficar. Durante meia hora, estou a viver dentro de um cantico ritual que se repete ha centenas de anos neste mosteiro, em tempos partilhados pelo proprio Panchen Lama. Assisto a tudo em silencio, com o coracao aos pulos. Mais uma vez, questiono o porque da minha presenca naquele lugar e porque e que fui eu que tive a sorte de ali estar. Alguma coisa me pos naquele patio aquela hora. E alguma coisa me pos em Sera a hora da licao de teologia. E essas duas experiencias em conjunto ensinam-me que a Curiosidade e um valor que nunca podemos menosprezar. Inconscientemente, estou a combater mais um dos males budistas: a ignorancia.

As tantas, noto algum movimento no exterior da capela. Varios monges que estavam la fora dirigem-se a outra porta. Mais uma vez nao resisto a segui-los, e por esta altura ja estou totalmente confiante da minha pessoa. Nao faco cerimonia nenhuma em segui-los. Olham-me com espanto primeiro, curiosidade depois e finalmente sorriem-me. Estao a preparar o cha, uma mistela intragavel de agua e manteiga de iaque, que todo o tibetano carrega num termos e bebe durante todo o dia. Aproximo-me. Sorrio ao velos preparar a refeicao em enormes potes de barro. Sorriem de volta. Interrogam-me na sua lingua. Nao lhes sei responder, por isso solto uma sonora gargalhada que os parece divertir e cativar. Apontam-me a saida. Desapontado mas respeitador, saio. Para minha supresa, estendar almofadas no patio e apontam-me uma. Sento-me. Sentam-se tambem. Dao-me uma chavena. Quando realizo onde estou, encontro-me no patio dos budas, a partilhar cha de manteiga de iaque com os monges de Tashilhunpo. A conversa e gestual, mas a experiencia e tao fascinante para mim como para eles.

E ali estamos, num entardecer tibetano, a partilhar a nossa sinceridade em toscas trocas de palavras. O momento nao e so magnifico pelo Unico que e e pelo privilegio que tenho em fazer parte daquele ritual tao tibetano do cha. O momento tambem vive, e muito, da humanidade que se transmite mutuamente. Separam-nos a lingua, a nacionalidade, o passado individual de cada um, a religiao e acima de tudo a condicao: um turista ocidental de um lado, monges celibatarios do outro. No entanto, conseguimos passar ali um momento de comunhao, que suplanta a componente exotica que inevitavelmente lhe esta inerente.

Quando os monges se preparam para me servir mais uma chavena daquela intragavel mistela, considero que o sacrificio nao o justifica. O cha e mau demais. Sem ser execravel, e um nojo, uma especie de leite salgado com sabor a iaque, um parente da vaca. Nao ha monge tibetano amigo que valha mais um trago daquilo. Satisfeito com o pragmatismo desta decisao, levanto-me despedimo-nos como velhos amigos. Eles ali ficarao, dia apos dia, cha apos cha, cantico apos cantico, ate serem mais um monge velhinho de bengala. Eu, de volta ao meu mundo, ano apos ano, realizacao apos realizacao, ate ser mais um lisboeta velhinho de bengala.

Caminhos diferentes com um fim comum.

Regressando e partindo

O autocarro do dia seguinte tem a mesma historia do anterior. Mas desta vez, vai ainda mais cheio de gente do campo. Saimos ainda o dia e uma ilusao distante e nao dixa de ser um momento estranhamente mistico fazer-me a estrada do Tibete num autocarro com temperaturas cortantes, hipnotizado por musica tibetana que soa suave sob o ceu estrelado do ultimo halito da madrugada. Quando o dia chega por detras das montanhas, o gelo ainda me queima todo o corpo. Paramos a beira da estrada para nos aquecermos numa fogueira onde um velhinho coze ovos e cha. Recuso o cha mas como com prazer dois fumegantes ovos cozidos, a estalar de quentes. O frio la fora e tao cortante que quase tem cor, meio azulado, meio transparente.

De volta a Lhasa, regresso aos meus locais habituais. Quando cai a noite, encontro-me com amigos no cafe americano. Conversamos durante horas, comemos na rua. Volto a encontrar-me com o amigo espanhol e a americana, fazemos uma pequena festa de despedida. Trocamos presentes espontaneos. E espantosa a dimensao das relacoes que se constroem na estrada. Eles continuarao o seu periplo. Uns pela India, outros pela Mongolia. Outros regressam a casa.

Eu tenho um comboio para apanhar, com direccao a Pequim, atraves de todo o Tibete e o Norte da China. Durara 48 horas. A linha acabou de ser construida em Junho e servira para aumentar o turismo no Tibete. Nao foi por acaso que vim a Lhasa antes dos chineses comecarem a explorar essa linha, no seu projecto de multiplicar exponencialmente o turismo para o Tibete ate 2020.

Ainda bem que assim o fiz. Sem duvida, nao encontrei o que esperava mas o que descobri deixou-me satisfeito: o Tibete nao morreu.

3 comments:

IAI said...

Grande Sirocco!

Realmente transportas qualquer um para esse mundo! Infelizmente só descobri o teu blog hoje, há 2 horas atrás, mas não dá para parar de ler tais descrições. Consigo perceber perfeitamente o que te passa pela cabeça enquanto descobres novas terras porque durante um mês também eu andei pela Tailândia, Cambodja e Vietname. Os cheiros, as buzinas, os fumos, o caos que ainda assim parece ter ordem, os locais, os templos, que por esses lados são como centros comerciais em Portugal, as viagens, as coisas mais pequenas, e aparentemente ridículas, mas que nos fazem pensar sobre o novo sítio onde nos encontramos e realizar que a distância que separa esse do nosso mundo não é mensurável apenas em milhas. O teu blog fez-me dar ainda mais valor ao mês de Agosto inenarrável que tive. Amanhã, sem qualquer dúvida,estarei aqui outra vez a ler estas pérolas magníficas com que tu nos contemplas.

Grande abraço

Lorena said...

Espero que tenhas experimentado carne de Iaque que é muito saborosa ao contrário dos chás com leite.

Agora na China come muitos Chao Min Fan que são baratos e muito gostosos.

Em Beijing não poderás ignorar o tradicional Pato à Pequim.

Abraços e boa sorte com essa maratona ferroviária.

Anonymous said...

Hey dude, its Artic from msn, so are you in the Himalayas? I think I remember you saying you were going to go there. I have been as well, but on Indian side.