Thursday, September 06, 2007

Na varanda de Don Feliciano



Fumo um cigarro de consumo lento num pequeno hotel em Neily. A varanda abre-se para o movimento ja escuro da pequena vila. Ninguem, nos outros quartos; sou o unico hospede deste hotel adormecido, nesta terra de ninguem a caminho de lugar nenhum. Sou, tambem, o unico hospede nos ultimos 20 dias e o unico portugues nos registos iniciados em 1977 que folheio junto a Don Feliciano Musuco, o velho dono de grossas lentes e maos sapudas.

No entanto, assegura-me ele, esteve ca um outro portugues, ha uns cinco anos. "Se llamaba Mota, creo. De apellido Mota."

Mota; eu.

Don Feliciano.

Fumo o cigarro e percorro, observando o lento consumir da cinza fosforescente, os ultimos tres meses. Tambem eles se consumiram inevitavelmente, como o cigarro que seguro com dois dedos adormecidos. Tres meses, mais de tres meses pela estrada fora. Mais de tres meses de outros hoteis, outros cigarros, outros velhos de lentes grossas, outras solidoes. Tantas outras solidoes, tantas vidas consumidas nos campos, montanhas e cidades destes alegres paises destroçados pela historia. Tantas vidas que passaram pelos meus olhos; muitas pelas minhas voz e ouvidos. Algumas pelas minhas maos e o meu corpo.

Quantas, pelo meu coracao?

Todas, talvez, todas, e o seu conjunto forma o mosaico de cores e saudade que sopra levemente sobre o meu cigarro. Inalo de novo e foco a cor viva que quase toca o filtro que seguro com cuidado. Sinto o calor de mais um cigarro que chega ao fim roçar a pele dos meus dedos. Eu, que nem sou fumador.

Apago-o, finalmente, e com ele mais um dia, quase no fim de uma viagem, quase no principio de outra, muito maior.

Volto as costas a rua e dirijo-me ao meu pequeno quarto. É o fim de mais um dia, sorrio, ainda bem que faltam muitos por viver.

3 comments:

Joana said...

É tão bom ler o que escreves!

Vive os dias que faltam com toda a intensidade.

beijinhos***

jaybe said...

Mankes,
Seu fumador assiuduo.
Fico de dia para dia cada vez mais sensibilizado com estes teus textos e com a qualidade da tua escrita.
Quem escreve e sente assim nao é gago, e vejo que o esclarecimento te cresce na mente a mesma velocidade em que as tuas duvidas devanecem...
Contudo, prevejo um aumento exponecnial dessa necessidade ou bichinho de conhecer e viajar, e tenho um medo sincero que isso acabe num vicio.
Porém, um vicio saudavel que te ajudará a desenrascar-te e a desprender-te e que te atirará para a frente nesta derradeira viagem que se aproxima.
Tenho uma sincera pena e tristeza de nao poder estar presente no momento da tua partida, mas nao me vou submeter a tristeza e a saudade, pois sei que algo de muito maior nos espera uma dia...
Talvez uma volta ao mundo a 2, quem sabe?
Este foi o motivo do meu primeiro post no teu blog.
Uma despedida alegre que prevê dias de glória em conjunto num futuro próximo.
Vai-te fazer bem Mankes, e vai em paz contigo próprio, porque quando voltares estará tudo na mesma, tirando a ligeira inveja de todos que ficaram e nao aprenderam, nao viram, nao cresceram e nao conhecerem...
Nada temas, amigo, em menos de nada te farei uma visita e darte-ei aquele prometido Abraço!
Fica a Promessa.

mc said...

O Comentario!