Monday, December 18, 2006

Eu,

se fosse médico, recusava-me a fazer um aborto.

Eu, se fosse médico, tinha feito este juramento:

"I swear by Æsculapius, Hygeia, and Panacea, and I take to witness all the gods, all the goddesses, to keep according to my ability and my judgement, the following Oath.

To consider dear to me as my parents him who taught me this art
; to live in common with him and if necessary to share my goods with him; To look upon his children as my own brothers, to teach them this art if they so desire without fee or written promise; to impart to my sons and the sons of the master who taught me and the disciples who have enrolled themselves and have agreed to the rules of the profession, but to these alone the precepts and the instruction.

I will prescribe regimens
for the good of my patients according to my ability and my judgment and never do harm to anyone.
To please no one will I prescribe a deadly drug nor give advice which may cause his death.
Nor will I give a woman a pessary to procure abortion.

But I will preserve the purity of my life and my arts.

I will not cut for
stone, even for patients in whom the disease is manifest; I will leave this operation to be performed by practitioners, specialists in this art.
In every house where I come I will enter only for the good of my patients, keeping myself far from all intentional ill-doing and all seduction and especially from the pleasures of love with women or with men, be they free or slaves.
All that may come to my knowledge in the exercise of my profession or in daily commerce with men, which ought not to be spread abroad, I will keep secret and will never reveal.
If I keep this oath faithfully, may I enjoy my life and practice my art, respected by all men and in all times; but if I swerve from it or violate it, may the reverse be my lot."

Eu, que não sou médico, mas que penso nas coisas, vou votar NÃO no referendo.

28 comments:

Manel said...

mas não és médico, e por isso nao entendes qual é que é a nossa verdadeira função..nós nao somos assitentes sociais nem temos nada a ver com a ética, eu voto sim porque se as coisas acontecem quer tu e eu queiramos, quer nao, entao deve fazer-se o melhor possível!
Não é depois ter de tratar os abortos mal feitos e as complicações - até porque saí mais caro ao estado! - se não também nao devia tratar os bêbados q são atrolepados ou têm acidentes de carro ou mota! podes ter a certeza q nao tenho pena de nenhum deles! SELBSTSCHULD!

manel said...

há e mais uma coisa...
nós (médicos) já não fazemos esse juramento há anos! porque o modelo mudou..mas podes sempre falar com o reinaldo, aposto q o homem já teve q ler isso...

abraço e até breve
Manel

El-Gee said...

Nao ha duvida nenhuma que vieste enriquecer a discussao Manel. Obrigado pela opiniao de futuro médico.

Nao sabia que ja nao se fazia o juramento. Porem, como dizes, os médicos nao sao assistentes sociais, sao, em primeiro lugar, pesosas, com capacidade de julgamento própria.

Eu se fosse médico e nao quisesse tratar um bebado que se espetou de carro, estaria a negar, com a minha recusa, o direito de alguém à Sobrevivência. Estaria errado.

Mas se, ainda como médico, me recusasse a fazer um aborto, estaria a propagar, com a minha recusa, o direito à vida.

É diametralmente oposto.

Penso que a defesa da vida, enquanto médico, deveria ser um dos drives de motivação, caso contrário o que motiva um médico? O ordenado?

Quando alguém quer ser médico, não é porque gosta de curar? Salvar? Fazer viver?

(Posso estar completamente enganado, se calhar por isso é que não sou médico)

Eu nao defendo o boicote da Ordem dos Médicos ao aborto, se ele for considerado legal, mas defendo e defenderei sempre o direito de um médico a recusar-se a fazer um aborto.

Depois, para além disso, sou contra a despenalização do aborto, mas isso já é uma opinião minha, independente dos direitos dos médicos e mais relacionada com a minha opinião pessoal perante a vida e as belezas e responsabilidades que ela acarreta.

eu said...

É a primeira vez que comento o teu blog. Tenho lido os teus posts já há algum tempo e devo dizer que este me deixou um pouco perplexa...
De facto, acho estranho como é que uma pessoa inteligente como tu, que já conheceu e viu tantas coisas pode ter uma opinião destas...
Eu pessoalmente não sou a favor do aborto e acho que com as condições que tenho neste momento (emprego estável e idade acima dos 20) seria incapaz de abortar. Mas também não acho justo que apenas as mulheres com algum poder económico o possam fazer! Porque sejamos realistas, o que está aqui em causa não é a questão de se impedir, ou não, as mulheres de praticarem abortos, porque garanto-te que quem quiser fazer faz! A questão é que quem pode vai a Espanha, ou a outro país qualquer, onde seja permitido, e tem todas as condições médicas e sanitárias para o fazer, quem não pode (a nível económico) tem de recorrer a práticas clandestinas, nas piores condições, sujeitando-se a sequelas irreversíveis.
É uma hipocrisia continuar a perseguir as mulheres que abortaram. Até porque quem somos nós para julgar? Não acredito que nenhuma mulher faça um aborto de animo leve, sem ponderar, sem sofrer... A favor da vida, sim, sempre, mas a qualquer custo? NAO! Ter filhos sem condições para quê? Para acabarem em instituições tipo "Casa Pia"?
Acho que o aborto deve ser despenalizado. Depois cabe a cada um/uma decidir.
Quanto aos médicos, concordo que possam ter a possibilidade de recusar fazer um aborto.
Acho uma estupidez esta matéria ir a Referendo, a lei devia ter sido aprovada na AR e ponto final... Afinal aprovam tanta coisa sem perguntar nada a ninguém! Vão gastar mais uns milhares de euros para nada, pq sinceramente acredito que se o "nao" vencer a lei será aprovada na mesma.

El-Gee said...

Eu (Tu):

Obrigado pelos elogios.

A tua argumentação é difícil de contrariar, porque para quem não vê a defesa da Vida a qualquer custo como condição essencial numa sociedade, dificilmente poderia ter sido mais explícita.

Acontece que diferimos nesse ponto. É que eu, que tenho uma crença inabalável na Força Humana para se exceder e sobreviver feliz no Mundo, defendo a qualquer custo a Vida.

Casas Pias, infâncias infelizes, pobreza, sub-nutrição: são males menores, num Bem imenso que é a vida.

Que bom é viver! Que bom foi terem-me posto na Terra num país livre, onde posso ser o que quero, usando apenas o meu corpo e o meu cérebro, independentemente de tudo o resto.

Repara, eu não posso lutar contra o Mundo inteiro, e nunca poderei impedir mulher alguma de ir a Espanha abortar. O máximo que posso fazer, como cidadão português, é influir (quando posso) na legislação do meu país e depois confiar que as forças de ordem e os tribunais a façam cumprir.

A mulher que engravida é mais responsável pela sua gravidez do que o feto que se gera, esse sim totalmente isento de qualquer escolha ou responsabilidade. Eu quando voto "não", digo: "No meu país, distribuo o número de escolhas equitativamente. Não quero dar duas escolhas à mulher e zero ao feto. No meu país, quero dar uma escolha à mulher e uma escolha ao feto. A mulher escolheu - ou pelo menos foi responsável, com sorte ou azar - engravidar, então o feto poderá escolher viver ou morrer. Como o feto não fala, ao impedir o aborto estou a escolher, pelo feto que não fala, a escolha natural e intuitiva de qualquer ser vivo, incluindo os fetos: Viver."

Se, depois, as mulheres iludem a Lei, vão a Espanha, ou abortam num vão de escada, é algo que o meu Eu-Cidadão não pode evitar. Não faz sentido legalizar o aborto só porque, quando ilegal, ele existe. É o mesmo que legalizar o assassínio nas favelas de São Paulo ou o tráfico de droga nas ruas de Bogotá.

Não. Nas sociedades livres, um conjunto de valores cria Leis, e um conjunto de Leis rege as vidas dos cidadãos. As Leis – os valores – não se vergam perante quem as quebra. Para isso é que existe um Estado.

Penso que nisto estamos de acordo, e aqui refuto, um pouco, o teu primeiro argumento.

Respondes-me então, com um apurado sentido de realidade: “mas os ricos conseguem iludir a Lei, e os pobres não, portanto se não legalizarmos o aborto, quem sofre são as mulheres pobres”.

Minha cara Eu (Tu), isso é uma regra da vida, e não se aplica só ao aborto. Que os ricos consigam viver mais acima da Lei do que os pobres é uma falha nossa enquanto membros da Sociedade, mas não é justificação para aligeirar a Lei.

Eu, Luís, acredito na Vida e sou solidário para quem a possui. O feto possui vida e o aborto tira-lha. Eu, Luís, que não posso impedir todos os abortos do Mundo, vou até onde puder para impedir o máximo deles possível, dentro dos limites da minha força e dentro das fronteiras da Lei. Os meus concidadãos dão-me a possibilidade de escolher: “Luís, se dependesse de ti, a Lei deveria deixar os abortos fazerem-se livremente?”.

Eu respondo: “Não, a Lei deve defender a Vida, e se alguém optar pela Morte, que o faça à revelia da Lei.”

Se isso mantiver o número de abortos das mulheres ricas, e impedir os das pobres, pelo menos já ajudei a salvar algumas pobres vidas.

Se calhar, por não terem sido abortados, muitos meninos e meninas nascerão na lama das barracas, passarão pela fome e pela humilhação da pobreza, verão como a mãe se prostitui para os sustentar. Uns, seguirão o caminho do crime. Outros, darão um tiro na cabeça. Outros serão bons alunos e bons profissionais. Alguns constituirão família. Alguns abortarão.

Mas a todos, felizes ou infelizes, eu, Luís, dei um dia – com o meu voto – a possibilidade de acordar um dia e dizer: “Está Sol. É um bom dia para mudar a minha vida.”

Se não mudarem a culpa não é minha. Eu fiz o que pude: deixei-os escolher.

Anonymous said...

"males menores num bem imenso que é a vida", és tu que o dizes, não sei se eles concordam...
"A mulher escolheu engravidar", nem sempre.
Ninguém é a favor do aborto, ninguém deseja a morte de ninguém, agora não me parece justo penalizar as mulheres por provavelmente não terem tido outra escolha, além de terem de viver com o peso do seu acto, ainda são publicamente humilhadas. Os homens, deles nunca ouvimos falar...
Respeito a tua opinião e no fundo entendo-te.
Mas mesmo assim acho que cada caso é um caso, e não acredito que com a alteração da lei aumente o número de abortos, haverá sim mais condições para quem até agora não tinha acesso a elas.

Suponho que também não concordas, então, nos casos de violação ou de má formação do feto, que se pratique o aborto?

eu said...

"males menores num bem imenso que é a vida", és tu que o dizes, não sei se eles concordam...
"A mulher escolheu engravidar", nem sempre.
Ninguém é a favor do aborto, ninguém deseja a morte de ninguém, agora não me parece justo penalizar as mulheres por provavelmente não terem tido outra escolha, além de terem de viver com o peso do seu acto, ainda são publicamente humilhadas. Os homens, deles nunca ouvimos falar...
Respeito a tua opinião e no fundo entendo-te.
Mas mesmo assim acho que cada caso é um caso, e não acredito que com a alteração da lei aumente o número de abortos, haverá sim mais condições para quem até agora não tinha acesso a elas.

Suponho que também não concordas, então, nos casos de violação ou de má formação do feto, que se pratique o aborto?

El-Gee said...

Também não sei se eles concordam, mas quero dar-lhes a possibilidade de escolher. O meu ponto é que se os matamos à partida, eles não podem escolher. Já se os deixarmos nascer, tudo pode acontecer.

Eu quando sou contra o aborto, não estou a pensar que estou a "penalizar uma mulher": estarei a penalizar mais ao negar a alguém o direito à vida, ou a negar a alguém o direito a matar outrém, seja porque motivo for?

O meu ponto é esse: é muito mais vítima o feto abortado, do que a mulher a quem é proibido abortar. Porque essa mulher VIVE, REAGE, LUTA; o feto não, o feto DEPENDE.

A mulher tem um corpo, uma mente, quiçá um amigo, uma família, uma instituição de caridade, um subsídio de desemprego, um corpo, uma mente, um passado, um futuro. A mulher, mesmo que aparentemente não tenha nada, tem a Vida e as infinitas possibilidades que ela permite. O feto, a única arma que tem, é - ironicamente - a mãe que o carrega. Não posso - não devemos - permitir que essa mãe negue ao filho que gerou o direito a, pelo menos, ter uma oportunidade na vida.

"Dos homens nunca ouvimos falar". De facto, muitos fogem à responsabilidade. Mas mais uma vez pergunto: porque o pai foge, o feto tem morrer? Isto é: porque o pai foge, vamos permitir à mãe que fuja também??

Em vez de nos vergarmos perante essa impunidade e legislarmos, resignados com essa cobardia do Pai, contra a vida, não vale mais a pena legislar a favor de testes de ADN (por exemplo), que identifiquem e responsabilizem os pais das crianças?

Os casos de violação e má-formação não estão em cima da mesa, porque o aborto é permitido nessas circunstâncias. Não são esses que estão aqui em causa, e uma discussão sobre eles – porquanto interessante – só servirá, agora, de distracção e (sem dúvida estimulante) exercício intelectual.

(Já agora, uma vez que até nos conhecemos - senão não saberias a história do Hamster-panda que comentaste no outro post - porque não assinas?)

Miguel Costa said...

"Se calhar, por não terem sido abortados, muitos meninos e meninas nascerão na lama das barracas, passarão pela fome e pela humilhação da pobreza, verão como a mãe se prostitui para os sustentar. Uns, seguirão o caminho do crime. Outros, darão um tiro na cabeça. Outros serão bons alunos e bons profissionais. Alguns constituirão família. Alguns abortarão. (aqui acrescentaria talvez o mais importante: alguns serão felizes e gerarão felicidade)

Mas a todos, felizes ou infelizes, eu, Luís, dei um dia – com o meu voto – a possibilidade de acordar um dia e dizer: “Está Sol. É um bom dia para mudar a minha vida.”

Se não mudarem a culpa não é minha. Eu fiz o que pude: deixei-os escolher. "

É exactamente esta a razão porque não tolero o aborto e não consigo perceber quem tolera, e é exactamente esta mesma razão que me leva a aceitar a eutanásia.

Outra coisa é dizer que consigo "compreender" quem o pratica. (O argumento é o mesmo que foi usado na discussão das cunhas - que errar é humano e é preciso um esforço e trabalhar muito o bom-senso para não fazermos coisas condenáveis, para não sermos fracos. Porque penso que na grande maioria das vezes quem aborta fá-lo mais a pensar em si do que em quem foi abortado)


A propósito, andou a circular há uns tempos um mail que basicamente perguntava se abortariamos face a dadas situações, normalmente desgraças e condições face às quais um defensor do aborto abortaria sem pestanejar. Depois mostrava-nos que essas pessoas eram por exemplo João Paulo II, Beethoven, etc. Pessoas felizes e/ou geradoras de felicidade/bem-estar.

As pessoas podem "ajudar-se", podem passar por coisas más e dar-lhes a volta por cima, acabar bem e felizes. É mais dificil, mas é possivel (tal como podem ter tudo e desgraçarem-se). A vida é incerta para todos. Não lhes tirem, por lei, essa oportunidade só porque à partida têm menos probabilidades, aos vossos olhos, de serem felizes.

Sobre o post: Um médico serve para evitar males maiores. Se fazer um aborto significar salvar uma vida (a da mãe), então é legitimo que o faça, apesar de tudo...É verdade, só que depois abre-se o precedente...
Muito complexo o tema do aborto, quando verdadeiramente pensado a fundo.

Miguel Costa said...

(acabo de comentar e vejo que já há novidades!)

El-Gee said...

Nao tenho nada a acrescentar Miguel..

canetas said...

Luís e restantes participantes,

Antes de mais quero congratular-vos pelo nível do debate. Excelente.

Curiosamente (e uma das principais razões pelas quais acho que o nível é excelente) ninguém recorreu aqueles argumentos do tempo tão típicos do debate político português. A eterna disputa entre o número de meses em que o embrião se torna feto e o feto se torna humano, e o aparecimento da consciência como mecanismo do reconhecimento do eu.

Quanto ao aborto em si, o debate continua e vai continuar por muito tempo. As posições aqui defendidas são muito interessantes e tocam em pontos fulcrais.

Se bem que por um lado concorde com o Luís quando se refere que ninguém pode tirar a vida a ninguém, essa posição torna-se paradoxal quando se fala do médico em si.

Porque o médico, se bem que não um assistente social, é, sem dúvida alguma, um ser altamente social, especialmente tendo em conta a responsabilidade dos problemas com que lida.

Ora, um médico ao tirar uma vida, caso ache que deve ser feito, não é um indivíduo totalmente isolado do sujeito que está a tratar (neste caso a grávida).

Assim sendo, o médico, ao fazer o aborto sabe o que está em causa. Ele sabe também que condições a criança pode vir a ter, melhor que qualquer lei, cega como quase todas (isto não quer dizer que o médico deva ser único "árbitro" neste assunto).

Partir do principio que o aborto deve ser ilegalizado porque se está a tirar a vida a uma criança que pode ser bem sucedida ou, como tu dizes, que pode acordar um dia e decidir que dar uma volta á sua vida, é generalizar o que não pode ser generalizável.

Neste caso a condição de vida da criança que não foi abortada. Porque se o feto é dependente, a criança também é dependente dos pais no princípio da sua vida.

Essa dependência vai em muito influenciar as oportunidades dessa criança. Claro que muitos podem ser bem sucedidos, mas muitos outros com certeza não o serão.

O médico não é (e penso que qualquer lei do aborto que faça sentido tem que ter inúmeras qualificações sobre o que se classifica como passível de aborto) quem deve decidir sobre a vida da criança ou não. No entanto o médico, como interlocutor privilegiado deve ter algo a dizer.

Acho que poucos médicos te dirão que são a favor do aborto, mas muitos te dirão, com certeza, que, por aquilo que vêm todos os dias, muita gente não merece ter filhos porque não tem capacidades (especialmente mentais) para tal coisa.

A questão que eu coloco então é a seguinte (e continuo sem conseguir definir uma posição clara neste assunto):

Será legitimo impedir um sofrimento maior no futuro através do aborto?

Basicamente, e resumindo, discordo que, como diz o Miguel Costa, "A vida é incerta para todos".

Incerta a vida é sempre. De certeza mais para uns do que para outros.

m said...

eu disse: « agora não me parece justo penalizar as mulheres por provavelmente não terem tido outra escolha, além de terem de viver com o peso do seu acto, ainda são publicamente humilhadas. »

A mulher, sendo apontada como vitima é a velha "desculpa" sempre utilizada nestes assuntos.
Há muitas mulheres que utilizam o aborto como método contraceptivo, aliás, muitas senhoras ditas católicas, o que é uma vergonha.
As restantes (abrindo um precendente para as que estão a leste da informação e a leste de uma vida digna de qualquer ser humano), se engravidam, é porque não pensam. E se não pensam, não têm de retirar a vida ao seu "erro", por sua culpa.

Se eu engravidar amanhã por descuido, por mais complicada que seja a minha vida (sou nova, não tenho independência financeira suficiente e estudo), não vou abortar para me "safar" de uma grande chatice de ter de aturar um filho tão nova e de ter de me privar de várias coisas futuramente para o educar.
Dou-lhe vida que é o que ele merece!
Se há maturidade para termos uma relação sexual e nos descuidarmos, também terá de haver maturidade para darmos vida ao fruto dessa relação.
Posto isto, só os ignorantes, os pessimistas ou simplesmente as más pessoas é que terão a falta de coragem de aceitarem o seu futuro filho de braços abertos.
A ideia é esta.

Por fim destaco só esta brilhante frase:

el-gee disse: « O meu ponto é esse: é muito mais vítima o feto abortado, do que a mulher a quem é proibido abortar. Porque essa mulher VIVE, REAGE, LUTA; o feto não, o feto DEPENDE. »

Miguel Costa said...

Apesar de já ter tentado, não consigo perceber onde é que discordamos visto que tu também dizes que "a vida é sempre incerta" e eu não me pronunciei sobre os diferentes graus de incerteza para cada pessoa.

Quando à tua questão, acho que o aborto é em toda e qualquer circunstância ilegitimo, porque:

Mais do que ser-se rico/pobre, saudável/doente, ter se sofrido muito ou pouco (o sofrimento aparece na vida de todas as pessoas), o que interessa saber é se, no fim de contas, "valeu a pena viver?", e essa é uma pergunta que toda a gente deve ter oportunidade de responder.

Fora os suicidas, não imagino ninguém responder que não, no ultimo segundo da sua vida.

Desejar imensamente uma vida melhor é comum, mas isso é completamente diferente de desejar não ter nascido. E o aborto é assumir que alguém irá desejar não ter nascido. Ou então são os pais a escolherem o caminho mais fácil para eles.

É importante lembrar a capacidade do ser humano em adaptar-se às adversidades, em viver com elas. Lá está, de viver.

Miguel Costa said...

(mesmo para os suicidas há a possibilidade de não desejarem nao terem nascido, apenas desejarem não viver mais)

sofia said...

"Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada, por opção da mulher, nas primeiras dez semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?"

Pergunta infeliz.

Despenalizar é retirar um comportamento do elenco de factos taxativamente previstos pelo Direito Penal como crimes, e portanto punidos com penas, sem com isso tornar essa conduta legal, conforme à Ordem Jurídica. Deixa de ser crime mas continua a ser ilícita ou ilegal, pq contrária a outro ramo do Direito (sendo-lhe aplicável uma sanção não penal).
Legalizar ou liberalizar é deixar de considerar contrário ao Direito, ilícito, logo: legal, permitido. (Comportamento não sujeito a qualquer tipo de sanção penal, civil ou administrativa).

Andar de metro sem bilhete não é um crime. Mas também não é legal porque o Direito o qualifica como contra-ordenação e o sanciona com uma coima. Portanto não é lícito.

Se o sim ganhar a 11 de Fevereiro, o aborto feito por livre opção da mulher até às 10 semanas será, teoricamente, (só) despenalizado.
Teoricamente. Porque na prática ele será legalizado.
Legalizado porque deixará de ser crime, sem contudo ser reconduzido por lei a um outro comportamento ilícito não criminoso (como aconteceu com o consumo de drogas, que deixou de ser crime para ser contra-ordenação, deixou de ser crime mas continuou a ser ilícito).
Não sendo sequer ilícito, o aborto será legal. Portanto mais conforme ao Direito do que andar de metro sem bilhete, que é ilegal.

Se o sim ganhar, a mulher que abortar até às 10 semanas num hospital legalmente autorizado não cometerá um crime, não será julgada como tal, nem incorrerá numa pena de prisão até 3 anos. O seu comportamento será tão legal como ir medir a tensão.

Concorda com:
- tornar a interrupção voluntária da gravidez por livre opção da mulher (portanto sem se exigir a verificação de 1 das 5 cláusulas de exclusão da pena, hoje ainda exigidas para o aborto não ser punível);
- até às 10 semanas (pelo que li, limite temporal até ao qual se considera que o feto não tem sensibilidade nervosa – “não sente/sofre”);
- legal (porque não contrária a nenhum ramo do Direito nem reconduzida a qualquer tipo de sanção [jurídica]);
- se realizada num hospital autorizado por lei? (público - e portanto pago com os impostos de todos os portugueses, esses impostos que não chegam para tirar quem tem um cancro das listas de espera -, ou privado - que continuará a só estar ao alcance daquelas que vão abortar a Badajoz, poupando-se portanto na viagem).

É isto que me vão perguntar dia 11 de Fevereiro, e Eu ainda não sei o que vou responder.

A minha decisão ideal seria:
o mais tecnicamente esclarecida possível;
o mais moralmente universal possível;
o mais religiosamente neutra possível;
o mais socialmente responsável possível.

O aborto é a consequência de um problema social cujas causas o Estado não consegue resolver. E os problemas resolvem-se à partida e não à chegada, senão, rigorosamente, não se resolvem.
O aborto é provavelmente a decisão mais dramática da vida de uma mulher, a experiência mais degradante, culpabilizante, humilhante e traumatizante física e psicológicamente. A sua realização por um profissional de saúde num hospital devidamente apetrechado seria um enorme paliativo, além de evitar inúmeras mortes e lesões físicas e psicológicas irreversíveis, que são uma realidade.
O aborto não é um direito da mulher. Já o é o direito de fazer o que bem entender com o su corpo, desde que isso não interfira com os direitos dos outros. Onde começam os direitos dos outros? E do feto?

A minha decisão ideal não está ao meu alcance.

eu said...

Acho que todos os argumentos apresentados são válidos. Eu repito mais uma vez, não sou a favor do aborto, do acto em si, e nem sei se seria capaz de o praticar... Mas mesmo assim, acho que deve ser despenalizado, porque acho que esta lei não protege ninguém... nem feto, nem mulher. Se há mulheres que recorrem ao aborto como metodo contraceptivo, pessoalmente não conheço nenhuma e sinceramente custa-me a crer.
Conheço sim mulheres / raparigas que abortaram, por razões que não cabe a mim julgar, e sei que não é algo que se faz e que se esquece. É algo que persegue, que atormenta, que marca para sempre. Se eu quero que estas mulheres sejam julgadas num tribunal, obviamente que não quero. É isso que está aqui em questão (no meu ver), queremos que estas mulheres sejam julgadas? Votando "não" salvaremos vidas? tenho dúvidas...

Quem quiser fazer um aborto faz, com mais ou menos condições, é essa a única diferença.


el-gee: não escrevo o meu nome porque não acho necessário fazê-lo. Quando falarmos digo-te quem sou.

Miguel Costa said...

Eu, que nao sou de direito, gostaria de ver um direito em que fosse possivel haver flexibilidade mas na hora de julgar e nao na hora de legislar.

Nao, nao quero que uma jovem va presa por abortar (sim, ja lhe basta o peso na consciencia!), mas tambem nao quero que pareca que nao tem mal abortar (e o risco de isso acontecer aumenta com o facto de tornar legal). Quero que ela saiba que fez mal, que fique o exemplo dela para futuros casos. Quero que fique o principio. E è por isso que voto nao.
Quero que se trabalhem as instituicoes como a Casa Pia e quero que se criem condicoes. Nao quero desistir.

Nao quero ver uma neta minha daqui a 50 anos achar que nao tem mal nenhum abortar, porque e legal, e acho que e por esse caminho que se enverda ao legalizar.

(ja um pouco exausto do tema, retiro-me da discussao - ate prova em contrario...)

eu said...

Só vou fazer mais este comentário também...
Nasci e cresci num país onde o aborto era, e é, legal, e no entanto, nunca encarei o aborto como algo de positivo, e nem nunca conheci ninguém que se orgulhasse de ter abortado. A educação tem um papel fundamental aqui. Tem de haver educação, não falo só em educação sexual, mas também educação no sentido de incutir valores nos quais acreditamos, e estes, nem sempre, têm que ver com leis. Tal como a descriminalização do consumo de drogas não fez com que todas as pessoas começassem a injectar-se e encarar as drogas como algo positivo.

Sobre este assunto fico por aqui.

(el-gee: desculpa a quantidade de comentários, mas este assunto mexe mesmo muito comigo...)

El-Gee said...

Acho que temos aqui argumentos muito ricos para amadurecer as nossas opiniões. Obrigado por se darem ao trabalho de ler e de escrever.

Não vou rebater mais argumentos, mas concordo com o canetas: o nível está elevado.

Curiosamente, para quem não sabe, temos aqui nesta discussão opiniões de portugueses em Lisboa, Exeter, Innsbruck e Barcelona.

Hoje está um fresco dia de Sol em Lisboa e eu estou radiante por estar vivo.

Xiribi said...

Viver é bom.É óptimo.
Morrer faz parte da vida, é natural.

Abortar é limitar um ser inferior, o feto, não lhe chamo morte porque não chegou a ver a luz do dia.
Aborto é a consequência da paixão entre pessoas irresponsáveis sem educação nem valores.Cobardes.

É um facilitismo da nossa sociedade e uma fuga para os fracos.

Anonymous said...

Sao exactamente estes os comentarios que nao interessam numa discussao saudavel onde se aprende ao perceber diferentes pontos de vistas e se solidificao - ou nao - opinioes em assuntos em que e dificil reunir um consenso, de tao complexos que sao..discorto contigo el gee: o nivel ESTAVA elevado.
A menos que xiribi seja o dono da verdade e tenha elevado o nivel do debate iluminando-nos com a sua razao, com a sua resposta certa e matadora.

(ja gastei de longe os meus creditos no que toca a comentarios, portanto nao vou assinar Miguel Costa, vou antes manter-me no anonimato)

xiribi said...

Caro anónimo,

NÃO SOU dono da verdade, sou mesmo mais mentiroso que verdadeiro.
VERDADE, acredita.

Concordo quando dizes que o meu comentário é "matador", talvez incisivo.
Mas é apenas a minha opinião sem os floreados gramaticais que lhes quiserem pôr.
É tão válida como a tua, mas isso só o dono da verdade pode dizer.

PS - Solidificam escreve-se com "am" e não com "ao".

Miguel Costa said...

(ja gastei de longe os meus creditos no que toca a comentarios, portanto nao vou assinar Miguel Costa, vou antes manter-me no anonimato)


...

Anonymous said...

Só para relembrar que ninguem vai votar contra ou a favor do aborto... vai votar contra ou a favor da despenalização do mesmo! o que é completamente diferente.

manel said...

bem isto aqui já levou cá uma volta..
desculpem lá a minha ausencia, mas estive em portugal...

Bom eu concordo com a nossa amiga EU, mas para alem disso queria esclarecer aqui umas coisas...

A História que o feto é um ser humano...

nao entendo como é q uma porrada de cells podem ser consideradas um ser Humano - nao me levem a mal,
MAS
para mim nao existem diferencas entre as minhas cells no laboratório e aquelas que se encontram no ventre de uma mae!

- Se houver diferencas, entao todos tinhamos de ser contra as investigacao com celulas estaminais. Pois estas sao parte integral do feto, mesmo que se também encontrem num ser adulto!

- Se NAO houver diferencas, entao temos um caso muito bicudo, pois temos de parar TODO O TIPO DE MANIPULACAO CELULAR!! hoje em dia há medicamentos altamente específicos e maravilhosos, MAS sao produzidos em celulas! (Anticorpos, vacinas, tratamentos contra Tumores, etc)

Luís, já levaste vacinas? Já!
e nunca te perguntaste como é que aquilo é produzido? todas elas têm um bando de culturas de cells por base!

Bem isto foi só uma pequena excursao pela ciencia.

Eu considero que esta história do aborto só diz respeito a uma pessoa: à MAE (e se calhar ao pai)

considero que o que está em causa é a liberdade de uma pessoa.

Nao posso aceitar que chamem a um feto um ser humano! e é com todo o prazer que te mostro o museu de anatomia onde podes ver malformacoes que sao o mesmo feto a quem chamam "ser humano"

"que um coracao bate"

-> nao dizem é que só bate porque a mae o faz bater!
uma crianca quando nasce nao precisa da mae para manter as suas funcoes vitais a funcionar! um feto SIM!

espero conseguir convencer grande parte dos votantes do nao a votar sim, pois o que está aqui em causa é a liberdade de uma mulher!

Ao votar nao, estao a votar SIM a uma ditadura, e eu amo a minha liberdade acima de tudo até da minha vida e por isso também sou a favor da liberdade de escolha quanto à eutanasia!

P.S: desculpem o layout do teclado
e a extencao, com isto me fico

P.P.S: acima de tudo temos de nos respeitar uns aos outros com todos os seus defeitos, conviccoes e opinioes

o homem do blog said...

Ser ilegal implica ser contra a lei.. não implica ser castigado ou penalizado.

Um drogado deixou de ser criminoso porque considera-se que o drogado é um doente, logo incapaz de fazer um juizo acertado de valor.. (afinal as drogas continuam ilegais)

O referendo pergunta não se uma mulher deixa de ser considerada criminosa se fizer um aborto, mas sim se o aborto e todos envolvidos deixam de ser considerados criminosos por estarem envolvidos num acto criminoso.

Apenas algumas correcções (de ideias.. não ortográficas!)

mas uma discução de ideias das mais agradáveis que já encontrei...

o homem do blog said...

2: é de concluir portanto que o Manel abortava até a um feto nascer. Se bem que um feto pode até viver e nascer com a mãe morta (pode acontecer, e até já aconteceram casos em que a mãe chega já morta ao hospital mas a tempo de se retirar o feto do ventre e de ele viver). Portanto no fundo ele na verdade não precisa da mãe para viver... e não me prolongo mais.