Sunday, October 29, 2006

Por entre escapes e incenso

O sol levanta-se cedo em no Nepal, mas so chega mais tarde a Kathmandu, depois de atravessar as montanhas. Mesmo assim, quando me levanto ja o dia vai alto. Sao oito da manha e o despertador do telemovel so vai tocar as 11:45 – tinha-o posto para as sete da manha, mas como me esqueci de mudar a hora (para umas estranhas +4:45), quando toca ja eu estou sufocado pelos escapes e buzinas da cidade. Seja como for, nem eu proprio fui despertador suficiente para mim mesmo, devido a uma estranha insonia das 2 as 5 da manha.

Kathmandu deve ser a cidade que mais naturalmente combina o puro misticismo de uma existencia espiritual com o caos desgovernado das cidades pobres. Em cada esquina suja um magnifico templo de pedra e madeira é adorado por velhos pedintes, homens meio sujos, lindas nepalesas nos seus saris coloridos ou por uma criana impecavelmente fardada: no Nepal, os domingos sao dias de trabalho, o que inclui a irremediavel ida a escola, que povoa as vielas de Kathmandu com incontaveis seres de meio metro vestidos como se fossem a caminho de Cambridge, uma caracteristica alias bem patente em varios paises ditos subdesenvolvidos. Ao ve-los passar penso, alias, onde termina este ciclo de impecavel formacao academica, ja que os adultos que vejo sao artesaos, taxistas, guias turisticos, soldados, agricultores, pedintes ou simples inuteis, (sem desprimor para a eventual existencia de uma industria de servicos, que eu apesar dos meus kilometros infindaveis pelo caos de Kathmandu nao vi).

Movo-me entusiasmado pelo meio desta turba urbana, atravessando a pe uma grande parte desta enorme cidade. A zona de Durbar é conhecida pelos seus templos, e de facto, depois de inenarraveis vielas intransitaveis - onde andar a pé é ser parte do transito, tal é a quantidade de veiculos motorizados e velocipedes que as povoa – chego a Durbar e deixo-me maravilhar por este centro urbano, povoado de enormes templos em madeira talhada, onde os nepaleses prestam a sua adoracao e os (surpreendentemente poucos) turistas se maravilham com a construcao, as velas que ardem, as pessoas em oracao e alguns macacos que saltitam animados de telhado em telhado.

A selva de Kathmandu nao se limita alias a esses pequenos portadores de doencas, e por entre as imensas portas que se entreabrem para as movimentadas ruas da cidade, cabras e vacas lutam pelo seu lugar ao Sol, rivalizando em numero com as galinhas mortas expostas para venda, estas por sua vez rivalizando em mercado com as frutas, doces, bebidas, roupas e artesanato que povoam as bancas e o chao de Kathmandu.

A medida que abandono, sempre a pe, o gigantesco centro da cidade, as ruas ficam mais largas e o comercio um pouco mais profissional, mas o numero de pessoas tambem se multiplica, deixando aos carros e as motas apenas o espaco suficiente para se esgueirarem por finos pedacos de espaco, numa batalha que inclui acelerar em direccao aos pobres policias de transito para que saiam da frente. Alias, essa triste figura do policia de transito nao passo de um fantoche fardado, ja que, sem semaforas nem regras, de nada serve um nepales fardado. Ainda assim, espantei-me ao reflectir, ja a noite tinha caido, que durante todo o dia nao vira um unico acidente de viacao nem atropelamento, concluindo assim que o transito tem uma auto-regulacao empirica em que cada agente em movimento assume que bater no proximo nao é bom, sendo chegar tarde igualmente mau.

Sinceramente, nao compreendo conceptualmente como aquilo funciona, mas se consegui chegar a tempo a Internet antes disto fechar, é porque eu proprio ja me movimento com à vontade por entre o perigo destas estradas, nomeadamente atraves de um truque infalivel que é por-me atras de alguem a atravessar as perigosas avenidas e usa-lo como escudo na minha travessia suicida.

A hora do almoco subi um enorme monte ate um templo budista de nome impronunciavel, mas que basicamente é um complexo de templos budistas povoado por monges e macacos, com uma vista majestosa sobre o aglomerado urbano de Kathmandu e as montanhas que o rodeiam.

Neste complexo, alem fotografar macacos e a arquitectura unica do lugar, tive a sorte de decidir aventurar-me por um dos pequenos templos budistas que o formam atras de um estrangeiro qualquer que la estava, assistindo ambos à socapa a uma cerimonia de oracao de monges budistas, que me arrepiou profundamente, em parte pelo que foi e em parte pela minha absoluta clandestinidade naquele local magico de voces em oracao, monges cores de laranja, bombos a tocar e aquele som de instrumento de sopro que ate agora so ouvira em filmes.

O budiscmo e o hinduismo andam de maos dadas em Kathmandu, e todos os nepaleses me dizem que seguem uma das religioes mas prestam alguma homenagem a outra, garantindo-me que ambos bebem mutuamente as suas praticas em tradicoes. Todos os templos, se bem que pertencendo a uma das religioes, tem elementos de ambas, e fotografei alias um Buda ao lado de Shiva, prova irrefutavel da mescla espiritual que para aqui vai. Basicamente, os nepaleses desta zona acreditam nos deuses e reencarnacao hindu, sem deixar de prezar e seguir os ensinamentos de Buda, principe inluminado cuja religiao prega, tal como o hinduismo, a boa accao nas varias vidas ate ao Nirvana final.

Vale, alias, a pena reflectir nos tres “males” que o budismo considera e que, mitigados os quais, o ser humano ascente do divino: desejo, furia e ignorancia. Sem pôr de parte os valiosos valores do Cristianismo, vale a pena pensar nisto, ate porque nao sao incompativeis.

O fim do dia levou-me, desta vez de taxi, a Patan, uma das duas pequenas cidades que formam com Kathmandu as tres povoacoes do vale de Kathmandu.

Em Patan encontro uma esplanada com vista para os Himalayas em frente a sua Durbar Square, significando isto que com uma cerveja nepalesa na mao e na companhia de tres holandeses que ali estavam passei uma hora a ver os magnificos templos de Patan (ainda mais magicos do que os de Katmandu), com o pano de fundo das maiores e mais nevadas montanhas do Mundo: os Himalayas. Depois da prece budista, este talvez tenha sido o melhor momento do dia e sem vergonha o considero entre os mais magicos que alguma vez vivi em viagem.

Anoitece na praca de Patan e a pequena cidade dirige-se para la, com vendedores, cozinheiros e pequenos e atrevidos saltimbancos se deliciam, num final de um domingo de trabalho. Ali vivi e observei, sem duvida, a mistura da pobreza com o misticismo, esse cokktail inofensivo que transforma Kathmandu e as cidades do seu vale num lugar sobrenatural. Com tanto lixo e poluicao, é surpreendente o misticismo que este lugar conserva e que eu apenas limitadamente e depois de um misero dia consigo exprimir com palavras.

De volta ao hotel, tenho a infeliz noticia de que a minha agenda nao me vai permitir ir de 4x4 para o Tibete, dado que a unica expedicao parte demasiado tarde e tenho de estar em Lisboa dia 19. Assim, cometo a terceira inconsciencia da viagem, que é decidir embarcar de aviao para Lhasa. A segunda inconsciencia tomei-a ontem, e foi comprar um voo panoramico pelos Himalayas operada por uma companhia chamada Buddha Air.

Ja a noite vai alta e, neste momento em que o descolar se aproxima, anseio que a denominacao divina da companhia tenha uma proteccao proporcional ao seu nome, ja que as vidas espectaculares que me prometeram de todo o Himalaya nao sao suficientes para mitigar este inexplicavel medo de voar.

Depois de sobreviver a este transito, voar se calhar ate vai saber bem. Mas quando ca em baixo está Kathmandu, nao ha vista aerea que compense este lugar apaixonante. A menos, claro, que o Evereste me olhe nos olhos.

E, pelo que me prometeram, vai olhar.

7 comments:

mankes said...

bem-aventurado sejas. despertaste em mim um sentimento indescritivel por uma palavra só. um misto de pura inveja, fascinio, e arrependimento em ultimo grau.

mankes said...

bem-aventurado sejas. geraste em mim um sentimento indescritivel por uma palvra só. um misto de pura inveja, fascinio e arrependimento em ultimo grau.

seabra said...

Continua a escrever que vais sempre ter pelo menos 1 leitor assiduo. E sff, nao pares de tirar fotografias.

Além disso, quando escreves é um sinal que tás vivo e que sobreviveste a esse amontoado de transito, consfusão e linhas aéreas duvidosas.

Abraço!

m said...

que bom poderes deparar-te com computadores por ai.
Mas no fim quero ver o livro editado...

Cuca said...

Q maravilha! Tens uma capacidade enorme de envolver o leitor. E esse teu medo de voar... Só de me lembrar da tua cara quando voavamos do Serengueti para Arusha imagino q n seja nd fácil embarcar nesses voos do 3º mundo. Ainda bem q a tua fome de conhecer o mundo é muito maior do q esse inexplicavel medo!! Continua sp a dar noticias

Baci

Bernardo Theotónio Pereira said...

grande Siras que bom que é ler estas aventuras...a maneira como escreves quase que passa o cheiro desse mundo tão diferente e distante. Que tudo continue a correr bem.
Um grande abraço

Joana said...

Agora é a minha vez:

Invejo-te