Monday, October 30, 2006

Meio em espirito, meio em consciencia

Voando

Sobrevivo intacto ao voo da madrugada, apoiado por duas simpaticas hospedeiras austriacas que marcaram o mesmo voo que eu e me tranquilizam a medida que um pequeno bimotor se eleva sobre os ares de Kathmandu em direccao as enormes montanhas que rodeiam a cidade e que compoem a maior cadeia montanhosa do Mundo. Durante uma hora, esqueco a possibilidade do motor ao meu lado rebentar de um momento para o outro e deixo-me conquistar pelas montanhas que aparecem majestosas mesmo junto a minha janela. Das 14 montanhas superiores a 8.000 metros que ha no Mundo, tenho quatro a menos de 1 km de mim, incluindo o enorme Evereste, indiscutivel rei das montanhas, tal a sua gigantesca dimensao nevada, mesmo quando comparada com os outros picos de kms e kms de altura. “Tenho os Himalayas a minha frente!” – penso incredulo, repetindo-o mentalmente durante dez minutos, tentando provar a mim mesmo que estou a ver as maiores montanhas do Mundo que so conhecia de livros e relatos. “Sao 8 da manha e ja ganhei o dia”, penso. “Ainda por cima, o aviao nao caiu.”

Estava completamene enganado. Aquela hora foi so o inicio de um periplo pelo enorme vale de Kathmandu, que contem uma grande cidade e duas pequenas cidades (Patan e Bakhtapur), para alem de varios aglomerados rurais e urbanos altamente subdesenvolvidos, tudo sob o olhar atento dos picos nevados dos Himalayas.

Vivendo a actualidade

Durante as minhas deambulacoes a procura de um taxi que me levasse a estacao de autocarros, cruzo-me com uma manifestacao maoista, onde milhares de nepaleses com chapeus brancos de papel se manifestam pelas estreitas ruas de Kathmandu. Os guias dizem expressamente para as pessoas se manterem afastadas de qualquer tipo de agolmerado maiosta. Nao consigo. Todos os dias leio noticias sobre maoiostas nos jornais europeus que leio com interesse, nao poderia agora fugir quando deparado com eles! Percorro toda a manifestacao em sentido contrario e absorvo os seus gritos reivindicativos. Olho a volta. Ha mais curiosos como eu. Nao estou sozinho neste tour improvisado pela politica nepalesa. Os manifestantes sorriem-me. Sou turista. Nao me querem mal.

Acabo por apanhar um taxi a meias com um casal ingles no fim de uma volta ao Mundo. Ouvem-se historias fascinantes do passado e aterradoras do futuro: o regresso a Manchester! Tremo so do pensar no que eles sentem. Ainda bem que so vim tres semanas!

Tomo entao um autocarro para Bakthapur, onde me encaixo entre uns quantos nepaleses em direccao as suas proprias vidas. Trata-se de uma carrinha podre, igual as outras cinquenta que compoem a poeirenta estacao de autocarros, conduzida por um personagem que seria tomado por drogado terminal em Lisboa. Precisamos de uma hora para percorrer uns 30 kms, entre o caos do costume, mas ja nos arredores da cidade. Tudo igual mas em maior escala! Passam por nos autocarros com dezenas de maiostas no tecto. So ao fim de tres ou quatro comeco a reparar neles. “Que e que se passa aqui! Ha gente em cima de autocarros!!” Realmente, ao olhar com atencao ve-se que sao autocarros normais, com gente normal, onde os manifestantes se integram, nomeadamente no unico sitio onde os autocarros do Nepal tem lugar quando nao se os apanha na estacao onde iniciam o percurso: no tecto.

Uma casa de bonecas

Nisto chegamos a Bakhtapur, que deve ser a casa de bonecas dos deuses hindus e budistas, tal a quantidade avassaladora de templos majestosos que a compoem. Depois de percorrer algumas ruas medievais com as cenas do dia-a-dia de uma pequena cidade rural, caio quase de joelhos ao entrar na praca principal, uma das muitas que existe na cidade. Nao consigo acreditar no que vejo, na beleza dos templos, na vida local que aqui se desenrola, na mistura estranha de locais e turistas, num cenario vivo com 500 anos. Como e que isto esta aqui, como e que nunca ninguem ouviu falar disto? Como e que uma joia destas esta escondida neste vale perdido de Kathmandu?

Percorro o resto da pacata vila e perco totalmente a nocao do que é ter o minimo racionalismo no uso da maquina fotografica. Disparo em todas as direccoes. Nao consigo apreciar um detalhe, um relevo em madeira, uma estatua em pedra, um velho pedinte, uma crianca a vir fardada da escola, uma velha a secar arroz ao sol, sem fotografar e registar todos os momentos. Como é que pode existir isto, quando la fora ha caos, poluicao, predios decadentes, macacos nos telhados e gente que anda de autocarro no tejadilho?

Hindu por uma hora..

Na busca mental de uma resposta, sigo de taxi em direccao a Pashupatinath, o mais sagrado templo hindu do Mundo. La, encontro a morte. Nao o conceito de morte nem o meu medo dela, mas os corpos inertes daqueles que a conheceram. Por entre um enorme complexo de templos, um rio fétido flui quase parado, e a sua borda grupos de pessoas queimam os corpos dos seus entes queridos mortos, preparando-os assim para a proxima vida.

Assisto, quase hipnotizado, a varias cerimonias, rodeado de macacos nojentos, vacas que passam, familiares que confraternizam, saddhus (homens-santos hindus, de longas rastas e sem um duche ha dezenas de anos) e alguns turistas, estranhamente bem mais a vontade do que eu.

Estou ali a viver (como observador) o hindusimo e a Humanidade no seu estado mais puro: a morte e a reencarnacao vivem a frente dos meus olhos, e todos os que ali estao fazem-no por fe e devocao, ao contrario da minha enojada passividade de outsider.

Esqueco por momentos o nojo que me provoca o fumo que sai das piras em fogo, as criancas descalcas que chapinham na agua, a cor lamacenta do rio, e tento entrar na cabeca daquela gente. Como podem – como podem! – viver naquelas condicoes e fazer desta, a sua rotina pela vida? Ainda para mais, trata-se de gente rica: os pobres sao queimados ao lado, sem preparativo, sem pompa, sem canticos, sem roupa. Sem familiares. Sem nada. Corpos abandonados que desaparecem num fumo de fim de tarde, vidas anonimas que se degradaram lentamente nas vielas de Kathmandu.

O mais fascinante nestes dias, tem sido constatar que a visita turistica aqui é uma observacao do dia-a-dia. Aqui, os monumentos vivem-se. Os Jeronimos ou o Coliseu, por exemplo, sao magnificas obras de arquitectura caidas no desuso da modernidade. Quantos exemplos nao ha? As vezes, percorremos kms de capitais europeias maravilhados com elas, e ao fim de uma semana nao fazemos ideia de como vivem as populacoes locais. Aqui nao!! Aqui as cidades vivem entre os predios decadentes do presente e os templos intactos do passado. Como as pessoas sao muito religiosas e como o mais exotico em termos de arquitectura sao os templos, o turista tem oportunidade de ver uma vivencia exotica num cenario exotico. Pshupatinath pode ser um nojo, mas este complexo e tudo o resto que vi elevam a viagem a um estado permantente de penetracao minha no dia-a-dia das cidades. A unica diferenca é que eu so partilho com eles o espaco, e eles entre si partilham muito mais do que isso.

..budista por outra..

Uma israelita (outra a dar a volta ao Mundo) implora-me que va a Boudanath e afirma que é imperdivel. Olho-a agradecido mas desconfiado. Sao cinco e meia, o sol ja vai baixo, ja sobrevoei os Himalayas, andei numa manifestacao maoista, apanhei um autocarro pelos arredores de Kathmandu, perdi-me por uma vila asiatia medieval e participei no ritual mais sagrados dos hindus de todo o Mundo – nao chega?

Nao. Sob a grande aldrabice dos nepaleses com quem me tento informar, caio na ideia de que estou perto de Boudhapur e lanco-me a pe por meia hora entre bairros que constituem as traseiras do complexo de Pashupatinath. O aspecto é de degradacao, mas nao vejo miseria nem maldade. Sou bem recebido por toda a gente, no meio daquele sujo fim-de-tarde e gradualmente os predios em tijolo tornam-se mais civilizados, ate regressar a algo mais limpo. Estou na zona dos budistas tibetanos que se exilaram no Nepal, reconheco-o logo pelas caras das pessoas na rua.

Aquando da invasao chinesa do Tibete em 1950, muitos tibetanos (incluindo o seu lider supremo, o Dalai Lama) fugiram para a India e o Nepal, onde constituiram comunidades espirituais livres e vivas, segundo os relatos ainda mais genuinas e fieis a tradicao do que a cultura religiosa que os tibetanos vivem no Tibete actual, em vias de dizimacao total pelo barbaro governo chines.

Esta escuro. Abre-se uma fenda na parece a minha esquerda. É um portao. Tenho a minha frente uma gigantesca estrutura redonda branca, coroada por um enorme pilar dourado com dois olhos que me fixam, de cujo topo varios cordas com coloridas bandeiras de oracao se esticam ate uma estrutura um pouco mais abaixo. Estou, sem o saber e totalmente apanhado de surpresa, no maior templo budista do Mundo, reduto supremo do budista mundial, para nao falar do budista nepales e tibetano.

Desta vez, paro. Nao consigo andar. Nao acredito naquilo. O templo é enorme, deve ter mais de trinta metros de algura e um raio de cinquenta metros, e em volta da sua base centenas de fieis andam no sentido dos ponteiros do relogio, rezando e rodando as rodas de oracao, pequenos cilindros presentes em todo o templo budista tibetano (o budismo tibetano é uma das versoes do budismo) que, ao serem rodados, elevam aos deuses as preces de quem os movimenta.

A volta do templo, que esta num espaco mais ou menos circunspecto para la do portao que se abre na rua movimentada, pequenas casas formam uma especie de praca, e para la dela mais casas e vielas, num pacifico guetto tibetano, impensavel nos meus loucos devaneios pela loucura de Kathmadu.

Atravesso a custo o lento turbilhao de monges cor-de-laranja e fieis despretensiosos e subo pela estrutura branca, construida em socalcos e com escadas que permitem subir os varios niveis. Ja passou da hora de fecho dessa parte do tempo mas imploro ao guarda que me deixe ainda subir. Subo as escadas ate ao topo e olho os enormes olhos do suposto Buda. Atras de mim monges e fieis rodam rodas de oracao. Tocam sinos e tambores. Nao sei onde estou. Perdido algures em espirito, deixo-me levar por um momento unico. Felizmente, tenho nocao desse momento supremo e prefiro reduzi-lo a alguns segundos. Nao vim aqui em busca de iluminacao espiritual.

Alguns monges sentam-se em roda e comecam as suas oracoes, num ritual semelhante ao que tinha assistido no dia anterior mas sem a mesma pujanca nem pompa. Apenas uma pequena reuniao, com alguns gongos e trompetes, e um monte de fruta e outros tipos de comida no meio, trazidos pelos fieis para alimentar os monges. Em cada esquina, mais pessoas rodam rodas de oracao, benzem-se, tocam pequenos sinos, conversam, compram artesanato, andam, ajoelham-se, prostram-se.

Encontrei em Boudhapur uma espiritualidade que so vira em Fatima. No entanto, Fatima é solene, silenciosa, introspectiva. Boudhapur é viva, sonora, solidaria. Penso, durante a breve vinda de taxi de volta ao centro urbano de Kathmandu, nesta diferenca: o Cristianismo é uma religiao de louvor ao sacrificio, ao sofrimento, a morte na terra para a vida no Ceu. O budismo é uma religiao de busca, de purificacao, de procura do divino na terra. Toda a busca é alegre, viva, rica. Todo o sofrimento é triste, taciturno.

Boudahpur e Fatima, o Budismo e o Cristianismo sao, apesar de tudo, locais divinos, locais de Deus. Locais, talvez, onde o humano se faz pequeno em procura uma resposta para as suas perguntas ou, como dizia um nepales que conheci, uma consolacao para os seus medos.

..realista no fim

Eu prefiro Boudhapur, mas a minha religiao vive em Fatima. Alias, eu vivo em Portugal e nao nos Himalayas, felizmente.

Amanha, parto para um percurso amador de alguns dias pelos Himalayas e dai tenciono seguir em rafting ate Chitwan, na selva das lowlands, casa de tigres e rinocerontes. Daqui a 10 dias volto e voo para o Tibete. Ate la, muita gente para conhecer, sitios para ver e kms para percorrer.

Ca estarei para cumprir essa missao, curta comparativamente com esta gente que por aqui anda a viajar ha meses, mas mais do que suficiente para retemperar energias para mais um ano de intenso trabalho, porque a vida nao é so rodar rodinhas de oracao e esperar que nos chova ouro em cima.

9 comments:

Xavier Rudd said...

Meia hora de leitura fascinante, continua com o mesmo ritmo já que 3 semanas vão parecer pouco no fim.
Quanto mais trabalho melhor sabem as férias e se forem como tenho lido, acabo de perder alguma pena que tinha do amigo luis sair as 9 da noite do trabalho e não ter tido férias este verão. Enfim, ainda tens 18 dias... Esforça-te para ter tanto para contar como tiveste nos primeiros dias. Aquele abraço

Lorena said...

Depois de teres sido o meu principal leitor na minha recente digressão asiática não podia de seguir atentamente todos os teus passos.
As saudades de toda esse barulho, sujidade, liberdade e honestidade são cada vez maiores com os teus relatos, conseguindo de certa forma entender o que escreves, apesar de não ter visitado tais locais.
Continua com essas brilhantes descrições, pois no regresso, serão elas, aliadas à tua memória que te recordarão a enorme alegria que se sente nesses maravilhosos e distantes locais.

Pai said...

Oh filho, tanta escita, tanta escrita e nem um telefonemazinho ou um smsinho ou um emailzito a contar de uma forma mais cara a cara !!

seabra said...

Se bem te conheço deves tar a levantar-te às 7 de manha, louco por novas experiencias, e a deitar-te quando as pernas não deixam mais. Aproveita bem isso..

E telefona lá ao teu pai!

canetas said...

Que descricoes bonitas LPM.
Se fechar os olhos parece que estou a ver o que ves.
Acho maravilhoso, e ja tive a oportunidade de to dizer em diversas ocasioes, o fascinio que tu tens por esses locais e o racionalismo que revelas quando equacionas que, nem por um momento, poderias viver como eles.
Es o prototipo do spectateur engage. Suficientemente envolto para sentir e ao mesmo tempo suficientemente distante para analisar.

avónéné said...

Meu querido neto adorei as tuas observações e comentários. ès de facto um neto extraordinário meu amor. Um beijinho da avó néné

Sofia said...

Quanto mais tu escreves menos saudável vai sendo a minha inveja.

Aproveita. Volta. Traz contigo histórias e grandes fotografias.
Também para os que cá ficámos a lêr e a imaginar, a imaginar...

Ah e:

“Sao 8 da manha e ja ganhei o dia”, penso. “Ainda por cima, o aviao nao caiu.”

Estava completamene enganado.
(...)

Por favor Luis...

Filipe Morato Gomes said...

Cheguei a este espaço por um feliz acaso. Continuação de uma excelente viagem e parabéns pelos escritos.

Bernardo B. Cruz said...

Embrigante, intoxicante e acima de tudo... ÉPICO!!!!! Até dá gosto ler este blogue depois de se ler outros que por aí andam...