Sunday, October 15, 2006

A Experiência Cultural

Hoje passeava-me pelas ruas de Lisboa num fim de tarde já a entrar no frio ameno do Outono, por entre uma luz densa e já decrescente, vultos na calçada, casacos escuros, luzes de sinais e fumos de chás, cigarros e castanhas, quando me cruzei com uma expressão de entusiasmada curiosidade, já a caminho do que se poderia definir como estupefacção.

A dona desse trejeito facial - ou, não a dona, mas a intérprete naquele momento (e, mesmo assim, talvez fosse dona, já que a sua expressão era única, indefinível com palavras e irrepetível) - olhava para uma panela de castanhas onde estalavam, já bem assadas e por entre o brilho incandescente das brasas, algumas doses prontas a sair.

Apesar do entusiasmo com que vejo os primeiros vendedores de castanhas a invadir as ruas da cidade, oráculos pontuais do frio encasacado do nosso Outuno, hoje já tinha passado por alguns, de maneira que aquele vendedor não me despertou, especificamente, nenhum interesse na minha vadiagem ocasional.

Em antítese, aquela mulher – jovem (e bem gira) turista - parecia ver, na banalidade de uma tosca panela de ferro fluorescente e a estalar, a avassaladora experiência da Novidade.

Pensei, já depois de uma curta mas intensa observação da cena (que não era Cena nenhuma, visto que não houve interacção entre ninguém – nem sequer entre a mulher e o vendedor – e esse Acontecimento só existiu, fora da cabeça da mulher, na minha), quão simples é a satisfação de um viajante que viaje observando.

De facto, para aquela mulher, castanhas a assar são algo, não só inédito, mas também especial e fora do comum. Talvez como pernas de rã grelhadas num mercado vietnamita para mim, se eu não as tivesse já viste cem vezes em programas de televisão sobre viagens.

Isto é, o mais básico dos excertos da realidade pode tornar-se numa experiência cultural intensa, desde que assuma, para um dado observador, a condição de ser uma inesperada surpresa (e ainda mais se este a encarar como uma cena recorrente do dia-a-dia do local que visita).

A expressão daquela mulher encheu-me de alegria por nela ver o entusiasmo de um momento de forma alguma pré-formatado, previsto nos livros ou feito para ela. Não: aquilo estava a acontecer na banalidade do dia-a-dia e ela não necessitou que lhe chamassem a atenção para isso – simplesmente deixou que o momento se construísse e tirou partido dele.

Quantas vezes procuramos com avidez – em viagem e em casa – viver experiências diferentes, procurando desesperadamente agarrar os momentos, tantas vezes já com expectativas às quais queremos corresponder. E, quando esses momentos ocorrem, a alegria que sentimos raramente é isenta de alguma desilusão, porque um pouco do que vimos e vivemos é fruto de uma procura pré-meditada e, muitas vezes, é igual a um relato que já ouvimos ou uma imagem que já vimos.

Ela ía a passar na rua, no Chiado – provavelmente em busca de um café na Brasileira do qual já ouvira falar e que sem dúvida lhe soube bem, ou dos Armazéns do Chiado, ou da Igreja dos Mártires – e, quando menos esperava, uma panela de castanhas encheu-lhe a mente, de forma inesperada e ofuscante, pelo menos durante breves segundos, de todos os restantes objectivos dela para aquele fim de tarde.

E – quando concluí este raciocínio já eu tinha chegado à FNAC, uma centena de metros mais longe – se o que eu penso que ela sentiu foi efectivamente o que ela sentiu, o meu próprio dia ganhou outra alegria, porque eu próprio fui personagem principal de um Momento (de uma Experiência Cultural), em que eu era o Observador e a Mulher era o acontecimento.

Quem sabe, aliás, se alguém que passava não viu a minha cara satisfeita enquanto raciocinava pela Rua Garrett abaixo, não conjecturou o que me fazia tão feliz e não se tornou ele próprio num Observador.

Se assim for – e eu acho que assim foi e assim é, todos os dias em todos os momentos – os nossos sentimentos individuais não são senão reacções a estímulos dos Outros, também eles interligados, num jogo de influências em que somos todos actores indissociáveis uns dos outros e das Cenas da vida.

E, ainda mais intrigante, esses estímulos podem ser totalmente diferentes do que nós pensamos que eles são – se calhar a mulher estava a olhar para uma montra de uma loja e não para o homem das castanhas, por exemplo, ou se calhar a expressão na cara dela era de monotonia e fui eu que ali vi espanto – tornando portanto a Realidade que vivemos entre todos em algo que, no limite, pode ser totalmente – não diria falso, mas, pelo menos– diverso do que poderia ter sido, se soubéssemos interpretar correctamente tudo o que nos acontece.

E assim penso, rendido às evidências, que por mais que pense nunca vou compreender nada do que Acontece, razão pela qual cheguei à FNAC e voltei para trás, não fosse eu dar por mim no Castelo de São Jorge ainda entretido com o labirinto que é a Razão da Vida.

2 comments:

Xavier Rudd said...

Quantas vezes tive Momentos parecidos e nunca tive coragem de partilha-los.
Achava que era o único a pensar nessas coisas mas parabéns pela coragem, gostaria de ter presenciado o Momento.

El-Gee said...

q bom afinal n sou só eu!