Saturday, September 06, 2008

reflexoes de cafe num dia de chuva

Hoje, enquanto lia mais uma pagina de Midnight's Children, ocorreu-me um pensamento que nunca me tinha passado pela cabeca, que foi, pela primeira vez, admitir que o que lemos nos livros de ficcao é realidade e que é por isso mesmo que ler ficcao me da tanto prazer.

É óbvio que existe uma realidade fisica onde estamos inseridos enquanto materia (humana), mas ainda é mais obvio que essa mesma matéria so faz sentido num contexto muito maior, que é o dos sentimentos.

A nossa vida, e a percepcao que fazemos dela, é muito mais rica no espaco dos nossos sentimentos do que no limitado espaco fisico onde nos movimentamos. Alias, nas vidas sedentarias que a maioria de nós leva, a componente essencial da nossa vida desenrola-se no espaco do pensamento, da imaginacao e das relacoes. Sentir, planear, entusiasmar-se, irritar-se, achar piada a alguma coisa - tudo isto sao sentimentos e percepcoes externas ao nosso corpo. Numa vida de estudante numa faculdade ou de trabalhador num escritorio, 'a excepcao de fins-de-semana passados aqui e ali, somos muito mais o que sentimos e pensamos do que o que somos materialmente, na nossa movimentacao rotineira no espaco. Mesmo o acto sexual, por exemplo, no qual a maioria de nós ve uma componente importante da existencia, engloba (quando nao é quase exclusivamente) uma componente cerebral e emocional importante.

A imaginacao joga aqui um papel importante. Nos planos que cada um de nos faz do futuro - e os planos de futuro sao tudo o que nós fazemos com o cerebro, quando nao estamos a recordar o passado ou a dormir - a nossa imaginacao tem liberdade absoluta para delinear e construir aquilo que quiser.

O que chamamos de razao, de facto, obriga-nos a limitar a nossa imaginacao 'aquilo que julgamos fisicamente possivel, mas essa nocao do limite é uma barreira que nós proprios criamos com base naquilo que nos parece o razoavel dentro do nosso quadro de conhecimento - a verdade é que nós somos perfeitamente capazes, se quisermos, de imaginar livremente e sem barreiras do que é possivel e do que nao é. Ao fazermos isso, estamos a entrar num espaco ilimitado de possibilidades, em que cada um de nós cria o seu proprio espaco e a sua propria realidade, como cada um de nós a ve.

Criar estas realidades dentro de nós nao é inverosimil nem sonhador, e a prova disso é que muito do que é fisicamente possivel hoje nao o era ha anos - seculos, milenios - atras. Ou seja, se alguem ha cerca de 1000 anos visse na sua cabeca algo parecido com uma aviao, estaria, de acordo com o quadro de conhecimento da epoca, a criar uma realidade inverosimil e, como tal, poderia ser argumentado que essa pessoa nao estava a projectar uma imagem real. Contudo, como sabemos hoje, estava.

Portanto, concluo, nada do que a nossa imaginacao nos ditar é necessariamente impossivel ou inverosimil, porque existe a possibilidade real (como demonstra o exemplo do aviao) de o que estamos a pensar/imaginar poder acontecer.

Se isto é verdade, entao nao ha razao para os personagens de um livro de ficcao nao o serem tambem. Isto é: por muito inverosimil que nos pareca, um caracter de ficcao pode ser tao real como qualquer outro individuo de quem nos falem.

Quando alguem nos conta a historia de um explorador que subiu o Evereste ha 50 anos, por exemplo, nós sabemos que nunca o vamos conhecer. Para nos, a sua realidade fisica é irrelevante. O que nos interessa na sua historia é o desenrolar da sua escalada, o que ele sentiu, o que aprendeu, o que descobriu e o impacto que isso tem em nos, nos nossos sentimentos, no nosso prazer, na nossa aprendizagem e nos nossos planos.

Um caracter de ficcao provoca-nos precisamente as mesmas sensacoes, se for encarado com esse mesmo desprendimento fisico com que encaramos um personagem de um relato real que nao vamos conhecer fisicamente. 

A diferenca num caracter de ficcao, é que todo o contexto que o rodeia é tambem ficcionado, de modo que ao ler um livro estamos a projectar na nossa mente e no que somos hoje toda uma nova realidade, recheada de novas possibilidades, caracteres, espacos, mundos e licoes. Esse conjunto de novidades é real no impacto que causa em nos e na forma como nos molda. E a verdade é que, fisicamente, nao é menos real do que a historia de Gengis Khan ou de Filipe da Macedonia, porque temos tanta possibilidade de comprovar fisicamente a sua real existencia como a do Coronel Buendia ou de Adam Trask.

Os livros de ficcao criam possibilidades de pessoas e locais que, se sao realidade na imaginacao do autor, facilmente se tornam realidade nas nossas cabecas. E, partir do momento em que sao realidade nas nossas cabecas, tornam-se imediatamente possibilidades reais com possibilidade de impacto real em nos.

Alias, Saleem Sinai, em Midnight's Children, é com certeza muito mais real para mim do que um submarino seria para o Rei D. Afonso Henriques.

Ou seja, dos livros de ficcao podemos extrair inumeras novas possibilidades e exponenciar a nossa realidade muito para la do que nos parece possivel quando abrimos o Google Earth e olhamos o mapa do Mundo em busca de possibilidades.

Acho que é por isso que ler me da tanto prazer: ao ler ficcao, desbravo uma inifinidade de possbilidades - de pessoas, lugares, filosofias, sensacoes - tao ou mais reais do que as que construo e planeio na minha imaginacao durante o dia.

Nao quero com isto necessariamente implicar que, um dia, sera possivel transformar universos literarios em materia (e ainda assim, porque nao?), mas pelo menos penso que é razoavel admitir que a criacao imaginaria que se desenrola na nossa cabeca durante a leitura de um livro de ficcao é tao importante como a observacao racional da realidade fisica, porque ambas causam em nos precisamente o mesmo impacto: despertam os nossos sentimentos e fazem-nos (a nós) viver.

A literatura e os seus personagens só nao sao reais em matéria. Se admitirmos, como eu julgo razoavel, que a matéria é mais um impedimento do que uma condicao necessaria para o desenrolar de uma realidade genuina, cada livro de ficcao é um mapa aberto, e a cada pagina mais caminhos se abrem detro da nossa vida, e por cada novo caminho surgem inumeros sentimentos, e em cada sentimento inumeras possibilidades, e dessas possibilidades extraimos vida.

A prova de que isto tudo é verdade é que, se cada um dos leitores deste texto admitir como possivel o facto de eu, afinal, nao ter estado a ler Midnight's Children, e vir este texto como, por exemplo, "O discurso de Emanuel Piretio Saminio, presidente da galaxia de ciberoceano, no terceiro continente a contar da via lactea", nada do que acabou de ler tem menos impacto por ser o discurso de uma personagem de ficcao e nao o texto real de um blogger que a maioria dos leitores nao conhece e nunca conhecerá. 

El-Gee ou Emanuel Saminio, em Sydney ou em ciberoceano, real ou de ficcao: a questao nao está aí, a questao está no que El-Gee (ou Emanuel Saminio) diz e pensa, e no impacto que isso tem no leitor e na construcao do seu proprio caminho.

6 comments:

Ana said...

uau...

Li este post todo e concordo plenamente com o que dizes. Estou numa fase da vida em que me apercebo disso mesmo: a vida é muito mais rica no nível emocional do que no material. A matéria é nada mais que um impedimento para a realização de tantas coisas... Quando alguém morre, lembramos sempre o que ela fez, o que ela sentiu, o que ela nos fez sentir, o impacto que ela teve em nós. Não damos importância ao seu aspecto físico, enaltecemos antes (ou não) as suas atitudes, pensamentos... São eles que movem o mundo. O sonho, a imaginação comanda a vida. E a realidade física é o reflexo disso.

Pensei que ia ficar confusa ao ler o post. É grande e complexo, mas ao memso tempo é claro. Gostei de o ler porque me identifiquei com ele. Cheguei ao teu blog porque vi um coment num outro blog, Narciscamente, acerca de um post, Espirito Santo. Gostei do teu comentário e decidi ver o que se passava pelas tuas bandas.

LM said...

"Os planos de futuro sao tudo o que nós fazemos com o cerebro, quando nao estamos a recordar o passado ou a sonhar"

Isso é tão interessante como arriscado

Raquel said...

O melhor deste livro é, sinceramente, o teu post (não sou uma grande fã do Rushdie, mas tu tornaste-o maior que a vida neste texto ímpar).

Maxi Bróculos said...

Mercy

said...

Genial

Brooklin said...

Espectacular texto.
Grande imaginaçao e muito bem escrito.
No entanto nao concordo com nada á excepçao do ultimo paragrafo.

Pegando na historia do aviao acho que seria impossivel à mil anos atras imaginar um aviao como o conhecemos hoje pelo simples facto de nao existir nada, nessa altura, que compoe um aviao como nos o conhecemos hoje em dia.
O que eu quero dizer é que o nosso pensamento é, e dando-te razão, um instrumento unico dos humanos que nos permite divagar, misturar, separar, descontextualizar e acrescentar objectos, situaçoes, sentimentos, frases e pessoas da maneira que quisermos.
É uma liberdade total dentro da dependencia do universo de coisas que ja vimos, vivemos ou experienciamos.
Acho que nao podemos imaginar o que nunca vimos isoladamente em algum lado.

Ou seja, é possivel tu imaginares um planeta noutra galaxia porque tu e eu sabemos o que e um planeta e uma galaxia e podes juntar marcianos (porque ja vimos em filmes) a andarem de submarino ate ao centro do sol (porque sabemos o que e um submarino e um sol)

Nao sei se me faço entender, mas talves à mil anos o homem sonhasse em voar nao num aviao Boeing 747 com televisoes individuais, mas sim montado num cavalo (meio de transporte da epoca) com umas asas (como tem os passaros que ele via), dai tu hoje saibas o mito e a lenda dos cavalos alados.
Talvez venha dai.

Claro que tudo o que hoje vemos materializado surge de uma combinaçao de inumeros factores, onde entre os quais se inclui a imaginaçao, a inovaçao, a propria viabilidade fisica, a necessidade, etc.