Wednesday, September 10, 2008

A extraordinaria historia de Antonello Zimtutu

Esta historia foi originalmente publicada no Pheling Diary em Setembro 2006. Pheling é um pequeno arquipelago no Pacifico Sul originalmente povoado por portugueses amotinados de uma expedicao do seculo XVII e dai o texto estar em portugues - o Pheling Diary é uma publicacao bilingue. Ando a procura de edicoes posteriores a esta, para averiguar o aftermath desta história.


Décimo suicida regressa com vida

Foi encontrado ontem no norte do Alaska, num corpo de salmao, o jovem phelinguense que ha dois anos atras tinha saltado para o oceano em Eastern Falls depois de almocar sushi com o seu avo e nao voltara a ser visto desde entao. Segundo o cacador que o encontrou, o jovem "nao mostrava sinais de ataque de predador e estava em excelente forma e com optima disposicao". Mark McMurrow é um cacador de ursos profissional e estava prestes a atravessar um rio numa das regioes mais selvagens dos Estados Unidos, quando "de repente, um enorme salmao saltou pelo rio fora e caiu na margem, levantando-se imediatamente sobre a barbatana." McMurrow conta que inicialmente pensou em disparar mas, quando o salmao - que era, na verdade, o phelinguense Antonello Zimtutu - lhe disse que nao lhe queria mal e estava apenas a procura "do oceano mais proximo", pousou a arma. McMurrow, um veterano cacador e um dos mais experientes guias florestais do Alaska, disponibilizou-se entao para o acompanhar na viagem de tres dias ate ao Artico, tendo abandonado o seu projecto de cacada. No entanto, as autoridades da primeira vila onde chegaram ficaram alertadas para o facto de verem um salmao daquela dimensao a caminhar e levaram Zimtutu e McMurrow para a esquadra local, de onde McMurrow foi libertado pouco depois e Zimtutu, apos, segundo a policia local, "um longo banho de imersao para recuperar o folego", foi interrogado, tendo-se ai descoberta a sua verdadeira identidade.

A historia do jovem - que na altura de fecho da redaccao estava ja, num compartimento estanque geralmente utilizado para transportar golfinhos feridos, num aviao a caminho de Pheling - se nao extraordinaria num arquipelago ja habituado a excentricidades, é pelo menos original: no seu interrogatorio, cuja gravacao foi disponibilizada aos orgaos de comunicacao social presentes numa conferencia de imprensa realizada ad-hoc apos a sessao, o jovem conta que "apos a refeicao com o meu avo, senti um enorme desejo de comer mais e mais sushi, ja nao conseguia conceber o Mundo sem aquilo. Fomos passear para Eastern Falls e eu, quando vi o mar la em baixo, so pensava nos peixes maravilhosos que o habitavam, e senti o impulso de os ir conhecer, e saltei." 

Odisseia Trans-oceanica

Apos "cerca de alguns segundos", Antonello Zimtutu sentiu "o corpo a tremer todo, das barbat..bom, dos pes a cabeca, e quando dei por mim estava transformado numa baleia. Quero dizer, nao sei se era uma baleia pois nao ha espelhos no mar, mas sentia o corpo enorme e dei por mim apenas a comer plankton e a ter necessidade de respirar a tona da agua, por isso penso que fui uma baleia durante uns tempos. Nao sei quanto tempo." Interrogado sobre se nao poderia ter sido um golfinho, Zimtutu garante que "nao, pois um dia fui atacado por tres tubaroes-touro e derrotei-os facilmente, e penso que nao ha nenhum golfinho com dimensao suficiente para isso. Para alem disso, nunca tive necessidade de relacoes sexuais e, pelo que sei, os golfinhos tem."

A historia prossegue, porem, e Zimtutu conta que "percorri quilometros e quilometros sem parar, ate que cheguei a um mar demasiado frio e quase me despistei, ate porque nao consegui interagir com nenhum animal debaixo de agua, por nao falar a lingua deles. A unica vez que senti alguma interaccao foi quando um grupo de baleias-francas me guinchou directamente, e é por isso que penso ter sido uma baleia, possivelmente uma baleia-franca austral".

"A certa altura, estava perdido num mar gelado e, depois de dias e noites sem saber para onde ir nem como voltar para aguas quentes, encontrei uma saida que ia estreitando. Nadei contra-corrente durante alguns dias, mas as tantas, quando a agua ficou mais toleravel, o meu corpo deixou de caber. Nessa altura, voltei a pensar no niguiri de salmao que comi com o meu avo e, nao sei explicar porque, o meu corpo voltou a mudar. Senti a mesma transformacao que ja tinha sentido, um grande turbilhao, e quando dei por mim estava a saltar por um rio acima. E o mais extraordinario é que conseguia respirar debaixo de agua."

Zimtutu conta ainda que "estava acompanhado por milhares de outros salmoes na minha jornada rio acima e, como eles nao me trataram mal, conclui que eu proprio possivelmente seria um salmao. Pelos vistos e verdade. Tem piada que salmao foi a unica variedade de sushi que comi com o meu avo. Acho que foi o destino. Agora que penso nisso, nao compreendo bem porque é que nao me transformei logo em salmao. Talvez o destino quisesse que eu sobrevivesse a travessia dos oceanos." Questionado sobre se alguma vez tinha percebido onde estava, Zimtutu revela que "ao ver a paisagem que me rodeava, de cada vez que saltava fora de agua, e ao reparar em tantos salmoes, ocorreu-me que pudesse estar na Noruega ou no Canada. O Alaska nunca me ocorreu, mas faz sentido."

O jovem contou ainda que sobreviveu a varios "ataques de ursos" e "mais de uma vez tive de evitar anzois de pescadores. Mas isso foi facil, pois como eu sou maior do que os outros, o anzol nao faz grande efeito na minha boca, e sempre que, por engano, engolia um, facilmente o cuspia."

De volta a terra firme

Sobre o momento do encontro com McMurrow, Zimtutu justifica o seu salto para fora de agua com a "enorme vontade que eu tinha em voltar ao mar." Aparentemente, o jovem viu no veterano cacador alguem que o podia ajudar. "Desde debaixo de agua topei logo que estava ali alguem que sabia onde estava o mar. Os outros pescadores nao me inspiraram nunca confianca, ate porque me queriam comer, penso eu."

Antonello Zimtutu, que por razoes obvias ("a minha roupa desapareceu, mal saltei para o mar em Eastern Falls") viajava sem documentos, foi inicialmente processado por presenca irregular nos EUA e ia ser deportado para Pheling. No entanto, esforcos diplomaticos do Ministro dos Negocios Estrangeiros Jonas Mazembe elevaram o jovem a categoria de refugiado, pelo que lhe foi concedido o contentor onde agora viaja. Recorde-se que a Lei Americana nao preve nos seus codigos a possibilidade de apreensao de um peixe por praticas criminosas e, como tal, Zimtutu seria enviado num voo comercial. No entanto, as autoridades phelanguenses, alertadas pelo correspondente do Pheling Diary em Washington, elaboraram um plano de accao e accionaram os mecanismos diplomaticos que permitem ao jovem regressar a casa dentro de agua.

Embora ainda nao seja certa a vontade do jovem, Michael Zintans-Silva, descendente do medico que em 1873 realizou a unica operacao de remocao de escamas de que ha registo na historia de Pheling, esta ja destacado no aeroporto para receber Zimtutu mal este aterre no aerodromo de Granding Island, depois de varias escalas. Recorde-se que, nessa famosa operacao, Antunes Silva limpou por completo a pele de um ilhéu que sofria de pele seca, tambem conhecida, na altura, por "escamosis". Dado o isolamento medico internacional a que o governo de Pheling se auto-submeteu desde 1939, Zimtutu depende exclusivamente dos recursos do pais para a sua metamorfose, embora, segundo um comunicado do Ministerio dos Negocios Estrangeiros, "A vontade do jovem em voltar ao estado Humano ainda nos é desconhecida, mas tudo faremos para lhe proporcionar um regresso pacato e uma reintegracao gradual, tanto em terra como em algum dos nossos rios.". Zintans-Silva é médico ha 15 anos e, apesar da pouca experiencia neste tipo de operacoes, é o medico com melhor preparacao do arquipelago para este tipo de intervencoes.

Algumas comunidades de varias ilhas do arquipelago vao tambem enviar os seus especialistas, em alguns casos curandeiros locais. A operacao devera acontecer no aeroporto, caso seja essa a vontade do potencial paciente.

Familia dividida

A familia de Zimtutu nao quis prestar declaracoes publicas, ate porque o seu avo faleceu pouco depois do alegado suicidio do jovem - na altura, comentou-se que por desgosto - e a familia entende que, "por respeito ao nosso querido pai e avozinho, nao daremos entrevistas", segundo uma nota enviada a nossa redaccao esta tarde. Nas parcas cinco linhas na nota, pode-se ainda ler que "estamos muito felizes com o regresso do Antonello, mas tememos pela sua saude e temos rezado para que a operacao corra bem e para que ele nos reconheca."

Relembre-se que os Zimtutu pertencem a comunidade catolica de Granding Island, tendo ja sido organizada uma vigilia ecumenica, que deverá reunir esta noite devotos de todas as religioes da ilha, incluindo alguns xamas de ilhas vizinhas.

Antonello Zimtutu aterra amanha as tres da tarde e, ate a operacao estar concluida, nao sera eliminado do obituario oficial do Estado onde, recordamos, o jovem foi incluido em 2006 apos o seu badalado suicidio.

Zimtutu foi o decimo e ultimo dos "Suicide-ten", nome pelo qual ficaram conhecidos os dez jovens que tiraram a sua propria vida em Setembro de 2006 no nosso pais, estando-se agora a debater a alteracao dessa denominacao para "Suicide-nine", embora isso possa trazer problemas com a banda de folklore phelinguense com o mesmo nome. Nenhuma accao burocratica devera ser tomada, ainda assim, ate ser feita uma analise medica ao jovem phelanguense que amanha regressa a casa.

6 comments:

Atrás da Lua said...

Vir aqui e perceber que há tanta coisa nova para ler, já me fez ganhar o dia. E é quarta-feira!

Filipe Canas said...

Coisa boa.

R. said...

Grande frito que tu és. Cuidado com o sushi. Eu sempre disso que poderia provocar efeitos estranhos.

Leonor said...

Frito??? Ele é o próprio do Douradinho!!

Lorena said...

Que saudade dessa loucura...

Andas novamente a transcrever sonhos?

RR said...

Delicioso.