Thursday, February 01, 2007

Jorge

Jorge casou magrinho. Que fraca figura, no seu fato desengonçado, de tristes olhos pretos ajoelhado ao altar. Era o noivo mais feio que jamais casara. O nariz comprido inalava com desprazer o fumo das velas antes dos seus convidados, e fazia sombra aos dentes tortos e mal cuidados. Sim, Jorge, na sua cara chupada por anos de tabaco, era feio. Triste, feio e tremendamente rico.

Talvez tenha sido isso o que atraíra Júlia.

Pobre Júlia. Pobre e matreira Júlia, velha raposa da noite nos seus magníficos trinta anos. Rijos, seguros e altivos trinta anos. Trinta anos de orquídeas loiras e suores de homem. Pobre Júlia, jovem ninfomaníaca, louca no seu desejo incontrolável e faminta de uma vida regrada.

Jorge jamais desconfiara, no seu cego amor pela única mulher que o olhara (também a única que alguma vez se apercebera da sua fortuna escondida), que a sua testa enrugada teria dois novos amigos desde o primeiro dia de aliança enfiada. Era um preço que, mesmo no seu tímido beco-sem-saída sentimental, apenas a custo estava disposto a pagar pela companhia de Júlia. Jorge odiava o seu par de cornos. Jorge odiava quando ela se escapulia, entre lágrimas, em busca do alimento que ele, frágil macho, não lhe fornecia.

Que já voltava, Jorge. Que ía só às compras, Jorge. Que ía tomar cafés com uma amiga, Jorge.

“Sua puta. Um dia pagas-mas.”

Mas Jorge não a punha fora de casa: Jorge, o pobre diabo, deixou-se encantar pelos refogados de Júlia, espantosa cozinheira de mil e uma delícias. Jorge, que nunca gostara de comer, alambuzava-se com os doces da manhã, os cozidos do almoço e os fritos do jantar. “Um dia, ponho-te na rua, sua grande vaca, e vais passar fome, sua devassa.”

Mas não, Jorge não a largava. Júlia viciara-o na sua comida. Júlia, essa doente, a pobre Júlia, perdia dias e dias na cozinha, alimentando com a sua colher de pau as saídas da madrugada. “Tens aqui, Jorginho. Come, come, meu querido, que eu já venho.”

E o enraivecido Jorge alambuzava-se, numa luxúria impotente, e chorava por mais uma colherada de arroz enquanto a mulher batia com a porta, na sua luta diária por outras comidas, outros prazeres. Outras necessidades.

Pobre Jorge, que aos poucos se tornou bem constituído, e daí a forte, e depois gordo, até um ser um cornudo balofo e trilionário.

No momento em que Júlia se despediu do seu milésimo homem, Jorge suspirou meio pernil de borrego num arroto monumental, admitindo consternado, com as mãos aos céus, “Sou um obeso de duzentos quilos com um par de cornos que fura o tecto e mil milhões de Euros no banco. Vou dar um chuto no cú a esta puta cozinheira.”

E quando ela chegou, pegou-a pelos longos cabelos loiros e, olhando-a da mais nobre escuridão dos seus embriagados olhos negros, beijou-a na face. Largando-a, ergueu triunfante o braço esquerdo, esticou o dedo anelar e puxou, com a mão direita, a aliança dourada, bradando enlouquecido: “Júlia, fico com os cornos, que só mil mais dois os conhecemos, mas não fico contigo, sua devassa sem vergonha. Basta de ti. Basta. Vai morrer na rua, tu e a tua fome de puta refogada.”

Ela, sorrindo, esperava, segura, o óbvio: a aliança não saíu. Jorge puxava, redobrava-a, espetava os seus dedos sapudos na carne espessa, mas a aliança não se movia. Cinco anos de azeite e óleo Fula, batatas do Algarve, açúcar castanho e manteiga de amendoim.

“Não, Jorge. Não sai. És meu.”

E, batendo com a porta, Júlia saíu para o mil e um, primeiro do segundo milénio de um total de cinquenta mil homens com quem dormiu na vida, engalanada nas suas roupas caras e sorriso de menina retocada. Júlia, a pobre ninfomaníaca, milionária em plásticas e cozinhados, esposa de um cornudo redondo, perdido no seu esqueléctico casamento e na sua balofa e eterna fome.

E Jorge, ouvindo a porta bater, cego de raiva e esganado de fome, devorou um leitão inteiro, e não percebeu – nunca! - que com a faca que cortava o bife de todos os dias poderia decepar o maldito dedo.

Pobre Jorge, gordo enfastiado, com um dedo a mais e juízo a menos, refém de putas e complexos.


(Jorge é inspirado num advogado gordo com quem acabo de discutir, durante longas horas de madrugada, um contrato de compra e venda. Por certo que esse real advogado é casado, senão esta história não existiria: eu bem lhe vi a esganada aliança. Menos certo é alguma vez ter sido tão magro como Jorge nos seus tempos de solteiro.)

17 comments:

Cuca said...

Gostei especialmente desta passagem: "que a sua testa enrugada teria dois novos amigos desde o primeiro dia de aliança enfiada".

José Maria Norton de Matos said...

Muito bom! Grande surpresa, não só escreves bem a realidade como a ficção. Concordo com a Cuca, mel de frase.

Miguel Costa said...

Muito bom!!!
Final perfeito quando o jorge tenta em vão tirar a aliança do dedo demasiado gordo, descrição genial da fusão entre a gula dum e a luxuria da outra!

(não pares de escrever!)

makoka said...

faço minhas as palavras da cuca!, a frase esta qualquer coisa!! acho delicioso olhar para as pessoas e imaginar toda uma vida por detrás delas...foi mt bem conseguido!

m said...

Nota 10!
Ai se eu tivesse uma editora...

canetas said...

Que maravilha LP.
Que maravilha.

Que feliz.

Bhagavad-gitá said...

sempre ouvi dizer que os homens se prendem pela mesa e pela cama. (ligeiramente básico devido à vossa faceta primária ;) ) acho q a júlia foi esperta, vou ver se tiro uns cursitos de culinária.

Qt ao advogado gordo c quem discutiste, devias ter vindo beber um copo cmg .. mas são os ossos do oficio, e já não es criança, pequeno luis!

Obviamente que dps temos os elogios habituais. Texto bem escrito, e gosto da simplicidade de certas frases como: "sua puta. Um dia pagas-mas". não há nada melhor que um texto corrido, sem floriados manhosos. acho q a verdade está sempre nas coisas mais simples e, de facto, Júlia para além de esperta era puta.

AHT said...

A julia por dinheiro.
O Jorge pelo Jantar.
Porque é que a Julia é mais puta que o Jorge?

canetas said...

Provavelmente por ir para a cama com mil gajos, enquanto que o Jorge, no maximo, deita-se com a propria obesidade.

seabra said...

Pobre Jorge, pobre coitado.. Rico em ouro, mas pobre pobre em sonhos.

Lá dizia a PUTA da floribella.

AHT said...

Canetas,
Temos conceitos de puta diferentes

Carolina* said...

Acho que sem querer (ou talvez não...)chegaste a ser simpático com Jorge, quando lhe dás a iniciativa de tentar tirar a aliança! Alguém como o Jorge não teria sequer coragem para isso!!
Por outro lado, essa simpatia acaba por lhe dar um fim ainda mais cruel: o daquele que pensa, pensa e pensa em se libertar, finalmente ganha coragem para o tentar, mas por muito que queira não consegue; tudo em vão!
Consegues ser cruel!!

Maria Strüder said...

Ehh lá o menino anda inspirado!
Gostei, mas sinceramente se o gajo era assim tão rico poderia ter contratado uma cozinheira boa e despachado os cornos há muito!

El-Gee said...

Ri-me tanto com estes comments que só por isso já valeu a pena ter inventado este Jorge às quatro da manhã de quarta!

(Pobre Jorge.)

Teresa Juncal Pires said...

Uma história engraçada!

Joana said...

Muito mas mesmo muito bom!
Este é um daqueles textos... em que passo o rato pela scroolbar e penso: "xiii que grande"... mas como começo na primeira palavra só consigo parar na ultima. Sorrir...abanar com a cabeça em sinal de afirmativo.. e ficar uns minutos a olhar à espera de mais!

Adorei esse casamento

Joana said...

criado as 4 da manha e mt bem criado. Parabens :D

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