Thursday, February 15, 2007

"Eu não sei dançar a valsa"

Talvez por medo do colesterol, Mário casara com um pãozinho sem sal.

Desde miúdo habituado pelo enorme avô a uma vida de farras sem sol, Mário, o corpulento Mário, vira na fragilidade de Concha a sua própria sensibilidade reflectida, porque Mário, como qualquer homem grande ou pequeno, também sentia algumas das pequenas coisas como uma mulher as sente.

Um homem potente e bem disposto, de voz poderosa e whisky sem castelo, Mário conhecera Concha num táxi partilhado num fim de noite em Albufeira, quando a frágil figura o arrastou, num asco determinado, até à porta de casa, já o Sol ia alto num verão de loucuras.

Reconhecendo-a na praia na tarde seguinte, Mário encantou-se com a sua carinha pintalgada de tímidas sardas sem cor, e convidou-a a tomar consigo um sumo de tomate, decidido a recompensar, com uma louca noite de prazer, o favor salvador do dia anterior.

Porque Concha, apesar da voz de pardalito adormecido, era uma mulher engraçada, magrinha e rija sem peso nem ossos, e de traços tão finos como a cor da sua pele quase transparente.

Ainda Mário não esvaziara o seu segundo bloody mary (na realidade, a verdadeira razão por detrás do convite para um sumo de tomate), já o seu coração inchava mais ocre do que o torpor de uma noite mal dormida, encantado, no seu rude desconforto de gigante amansado, pela sonolenta sonata de desinteresses que a tímida Concha debitava, monocórdica, através das frágeis linhas da sua boquinha ensolarada.

Nunca ninguém compreendeu como é que Mário, herói de mil noites, organizador de futeboladas, viajante de nove mares, marisqueiro de esplanada e roncador de três da tarde, se apaixonara por aquela amostra de ponto-cruz cor-de-rosa, sem encantos nem vontades, aquela magra borboleta de olhos sem expressão quase gastos por um Sol que decerto nunca vira.

E Mário, que a amara precisamente pela sua fragilidade de cristal que constantemente desafiava as suas desajeitadas manápulas a equilibrá-la sem a partir em cacos, cedo compreendeu como seria difícil abandonar a noite da carne, para amar de dia aquele coraçãozinho de pele e osso.

E Concha, que nada mais nutria por Mário do que a mesma total passividade com que assistia tanto a um tremor de terra como a uma comédia romântica de domingo à tarde, arrastava a paciência do marido como um gato adormecido arrasta a manta cor-de-rosa que lhe fica presa aos pés quando salta do colo da reformada que o acarinha.

Devagar, devagarinho, Mário, que sempre a amara pelo seu conceito, pela sua pequenina pequenez, pela graça dos seus passinhos debicados na alcatifa, pelas unhas brancas nos dedos compridos e pelas notas de piano que o acordavam, vindas da sala, aos sábados à tarde, Mário começou a compreender que Concha não era para si.

Beber um copo, Mário?
Mas Mário, já sabes que só gosto de sumo de laranja!
Jantar fora, Mário?
Mas Mário, acabei de cozer ali uma posta de pescada..
Às compras para mim, Mário?
Mas Mário, ainda ontem a minha mãe me veio trazer um caixote de roupa que já não usa..
Aos karts, Mário?
Mas Mário, assim sujo a bainha de óleo!
Para a quinta do Pedro e da Rita, Mário?
Mas Mário, não sei andar a cavalo.
Ao Douro, Mário?
Mas Mário, porque não ficamos antes cá, este fim-de-semana?

E depois, como quem não tem voto próprio, o triste salto para o abismo tão vazio que são as paredes ocas da indiferença: “Mas se quiseres, pode ser. Por mim…”

Mário, um passarão independente, teimoso como pedras de calçada, um amante da vida bem vivida, dos risos gargalhados em cubos de gelo, do abraço de um amigo e do beijo voluntário de uma mulher desamarrada, desesperava com a nulidade da sua mulher, esse alfinetezinho de dama brilhante e pequenino incapaz de segurar um entusiasmo que fosse.

Triste com o seu dia-a-dia a baixo volume e com a mosquinha de dentes direitos que o acolhia todos os fins de tarde em casa – porque Mário trabalhava, e muito, na empresa do pai – com um beijo sem brilho na face de after-shave, Mário decidiu levá-la, pela primeira vez, com ou sem o seu consentimento, a apanhar uma valente bebedeira.

“Já lá vão dois anos. Tentei levá-la a jantar, a beber uma cervejinha, a andar à vela com a malta, a ver cinema ao ar livre, a comer sapateira recheada e bife de avestruz, a visitar os sem-abrigo, a assistir ao teatro, a conhecer os meus amigos; tentei apresentá-la à minha irmã, mostrar-lhe a minha colecção de livros, convencê-la a pintarmos umas telas aos sábados de manhã; tentei levá-la aos bastidores de todos os concertos que por cá passaram, a comprar sofás novos para a sala, a beber caipirinhas em Copacabana e a mergulhar com peixes cor-de-laranja em Zanzibar; dei-lhe a provar chá de menta de Marrocos, charutos cubanos, pisco chileno, bifes das pampas, cordeiro patagónico e sushi de rã; quis levá-la à bola, à ópera, e a exposições de fotografia e a bailados polacos; quis mostrar-lhe a praia numa manhã de Inverno, um centro comercial nas tardes de domingo; tentei arrastá-la até aos promontórios da Nazaré em dias de vento e à baixa de Lisboa numa manhã de Verão; prometi, radiante, levá-la a passear de rolls royce e caravana pelos cantos do Mundo, durante um ano, dois dias, três meses ou o resto das nossas vidas; e nunca, em dois anos e vinte dias de bê-à-bás a meio-tom, consegui tirar esta flor da estufa abafada desta casa sem cor nem voz, nem para beber uma merda de um galão no café da esquina.” pensou.

E, decidido como nunca, vociferou, determinado, estafado de uma sexta de reuniões, de uma semana mal dormida, de um mês de empadão, de um Outono de roxo e de dois anos de passividade, decidido a recuperar o sorriso perdido e o oxigénio nos fortes músculos de gigante adormecido:

- Hoje, Concha, vamos para os copos juntos!

E ela, bailarina de grafonolas esganadas, libelinha de pântano seco e fada abonecada de conto de embalar crianças com tosse, soprou, como uma brisa de primavera sopra uma pena de seda, a trágica sentença da sua vida em comum, desmascarando nela a sua nulidade e mostrando a Mário, o crédulo e bom Mário, que se enganara, sem remédio, na escolha de uma mulher para a vida:

- Mas Mário, eu não sei dançar a valsa..

13 comments:

Maria Strüder said...

Lol o teu blog está apetitoso querido mas vou ter que dizer uma coisa, parecem contos de mulher lol

Lorena said...

Pobre Mário.......

m said...

E só para pegar no apontamento da maria strüder...
todos os homens têm um (ou vários!) lado feminino por mais minimo e escondido que esteja:p

Grande texto!

Docinho said...

LOL!

Era mesmo isso que o Luís queria que dissessem do texto! "Escreves como uma menina!"

Se ao menos houvesse aí um suplemento de masculinidade à venda nas farmácias...

E isto é apenas um comentário aos comentários. Não me crucifiques. Tudo o que digo é sem malícia alguma!

AHT said...

Excelente.
Para mim é o teu melhor texto que me deste a ler.
Gosto desta:

"E, decidido como nunca, vociferou, determinado, estafado de uma sexta de reuniões, de uma semana mal dormida, de um mês de empadão, de um Outono de roxo e de dois anos de passividade"

Joana said...

5 estrelas (e mais algumas) , como sempre!!

Escreves que até dói de tão bom que é!

beijinhos**

AHT said...

"Escreves que até dói de tão bom que é"

Isto sim foi a melhor coisa que já li

Lorena said...

Estou contigo aht

astuto said...

Muito bom texto. Estás a trabalhar bem.

Cumprimentos.

m said...

queirosiano!

Joana said...

Eu diria que a vida da Concha é ainda mais entediante que a do Mário...

Carolina* said...

Humm... essa Concha não me inspira confiança...
O Mário que tenha cuidado! Ela está ´`a espera que ele a traia e queira o divórcio para lhe extorquir uma (esta sim) muito entusiasmante indemnização! Isso, ou este tédio e enfado todo se deve aos desvarios que ela comete mal recebe o beijo de "Bom-Dia" na testa quando ele sai para o trabalho e até que chega!
É que afinal de contas o nome dela não é Cândida! É Concha... e quem sabe o que lá vai dentro?!?
:)

r said...

este foi o melhor que li.. impressionante