Monday, January 14, 2008

Pedacos de nao-nada

Os olhos no metro de Londres nao tem cor nem vida. Vao vazios. Vazios vazios.

Nao tem nada dentro, nada. Nem filhos, nem amores, nem casas mais tarde (ao final do dia), nem jantares com a familia, nem um jornal a lareira; nem uma garrafa de vinho, ou um cha quente, ou o proximo fim-de-semana na neve. Nada.

So um vazio transparente, um bater de rodas nos carris. Tum-tum, tum-tum.

Chiar de travoes.

Saem. Entram.

Olhos ocos, no chao, no tecto. Nos outros olhos, que tambem nao veem.

Milhares de olhos, de pescocos curvados, de baladas no iPod. E um calor sufocante a garantir que afinal ha respirar.

Milhares de robots, de carne quente, esmagados, anonimos, anonimados. Inanimados. Pedacos de gente.

Pedacos de Coisa.

Nao ha vida, no metro de Londres. So Quimica e Fisica. Ou nao-fisica, porque está muito cheio, ja nao ha espao para mais nada. Nao-fisica, nao-quimica, nao-nada.

Pedacos de nao-nada.

9 comments:

SE said...

É a isto que chamam Civilização?!!! Para onde se caminha Santo Deus?! Bjs

TRA said...

ves muita nao-vida nas pessoas no seu quotidiano, ja fizeste referencia a isso mais que uma vez...
muitas vezes partilho da mesma visão, no entanto volta e meia tomo noção do julgamento fácil (que advirá de muita ignorância) em que isso consiste. Com que cara, e que veem essas mesmas pessoas a olhar para mim no metro? Talvez por isso mesmo sempre me habituei a andar na rua de cara levantada, nunca com o olhar no chão, mas firme se se cruzar com outro. a mostrar que não faço a mesma figura dessas caras que parecem tão sem vida.
Claro que este julgamento de "tão sem vida" é de uma arrogância brutal. não te acuso de tal, já que digo partilhar do mesmo pensamento às vezes.

Num post falaste de um velho, que fazia pena, que vida sem graça, andar a dois a hora. mas era um velho, no aeroporto, se calhar até a caminho da america so sul, so com uma muda de roupa na mala. e uns comprimidos para o reumatico va, acedo a isso. sabes la.
acredito mais nesse pensamento do "sei lá eu quem está atras desses olhos, que no metro mostram os seus momentos vazios.". Aliás ja faço da actividade do "people-watch" o meu hobbie... invento vidas surreais e poemas sobre essas pessoas.

não deixo de andar de cabeça levantada, que já é naturalmente hábito de anos, pelo menos grande deboche prego a mostrar alma e vida que se calhar ate nem tenho!

gosto do espírito contraditório cénico e de confessionário do metro e da rua.

e tu que cara fazes, meu caro literato?

Bhagavad-gitá said...

ainda me has de dizer em que metro costumas encontrar olhos vivos... porque aki em lisboa tb os vejo mto vazios.

;)

Rato do deserto said...

Gostei imenso deste blogue e particularmente deste post. Os meus parabéns pela forma como escreves e como abordas os assuntos. Até breve.
JPT

http://ratododeserto.blogspot.com

makoka said...

o metro de londres é o buraco negro por excelência, onde as pessoas podem finalmente ser não-nadas.

É monótono, e aborrecido, e claustrofóbico, e sombrio, e velho, e pesado....e todos os não-nada podem sentir por alguns (muitas vezes muitos) minutos que às vezes não há mal em simplesmente se deixar de existir.

Abrem-se as portas do metro, as pessoas saem para o mundo, e depois já lhes é exigido que sejam alguém e que apreciem a vida! Já é preciso que se sorria, ou se esteja definitivamente carrancudo, que esteja feliz ou triste, mas com um estado de espírito definido para não haver confusão! Já é preciso existir...

inespimentel said...

Já por aqui não passava há imenso tempo...
Senti um arrepio cinzento e metálico, perante a descrição desse cenário desumano que se vive não só no metro de Londres...
Quem pode escolher deve fugir, enquanto vê o mundo a cores!

Amarcord said...

rest in peace maisde1000vozes..

Luis,

reanima isto já

bjs

Pulha Garcia said...

Aqui o problema, parece-me evidente, e' a malta que anda demasiadas vezes na circle line. Ha' que experimentar outras. O Northern line por exemplo tem um fauna nas carruagens totalmente diferente.

R. said...

Há vida no metro em Londres, sim. Houve para mim, pelo menos, por saber que ia chegar a casa para, em muito boa companhia, me encontrar com três garrafas de vinho a dez libras, e muita parvoeira misturada com filosofia. Tadichos e Steinbecks, todos no mesmo copo de tinto, a acompanhar a bela da courgette.